quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Melhor saúde do mundo - um desabafo

IBGE divulgou que os brasileiros gastaram mais com saúde do que o governo federal. Entre 2007 e 2009 as famílias brasileiras gastaram mais de R$ 157 bilhões, enquanto o governo gastou R$ 123 bilhões. Enquanto não tivermos uma lei que obrigue nossos ilibados homens públicos a utilizarem serviços públicos de saúde (SUS) vai ser isso mesmo. O melhor serviço público de saúde do mundo, né? Se gasta um caminhão de dinheiro com saúde privada só pelo prazer de manter o capital dos planos privados. Somos benevolentes e queremos rodar a roda do capitalismo. É só! E que os defensores de A ou B não esperneiem: Lulla - e qualquer outro dirigente público - deveria se tratar pelo SUS, assim como fazem milhões de brasileiros...

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Mulheres ricas e a Provocação

Ontem fiz um esforço extraordinário para assistir o novo reality show da Bandeirantes. Algumas pessoas no meu meio estavam pipocando o assunto e, por curiosidade meramente jornalística, resolvi assistir. A minha péssima impressão obtida através dos comerciais foi piorada. Sem ritmo algum, um grupo de mulheres muito ricas ostentam luxo, fazem piadas que somente a classe mais abastada - e burra - da sociedade pode achar alguma graça. Não? Não, não Diego, o povo adora isso.
Mas o que me espanta não é necessariamente um programa tão ruim estar na grade de programação de uma televisão já dominada por lixo embutido da indústria cultural. Quando fiquei sabendo, através das vinhetas e de comentários nada pertinentes, que a Bandeirantes apostaria num reality do gênero achei que não fosse dar certo. O que a maioria da população brasileira, recém promovida da classe D para a C, vai achar de um programa que coloca algumas debilitadas mentais sem nada a acrescentar – nem ao menos humor – a conviverem no seu mundo fechado de riqueza e superficialidade? Seria uma provocação que acabaria com os níveis de audiência. Mais um programa efêmero. Mas o fato é que a audiência vem aumentando desde a estreia. Então estamos diante de um caso claro do “consumo do consumo”, um conceito da minha ex-professora e pesquisadora Susana Kilp. O modelo de vida ideal, evocado não pelo american way of life, mas pelo capitalist way of life, é aquele. Eis o fim da humanidade, o esvariamento humano, e o começo da civilização do imaginário pós-moderno. A classe C sabe que aquele mundo vai ficar no imaginário, é para poucos. Mas pouco importa, está consumindo, está fazendo parte do mundo dos ricos nem que seja por alguns minutos.
O falecido carnavalesco Joãozinho Trinta dizia que o pobre gosta de luxo, quem gosta de pobreza é intelectual. Tirando a segunda oração, corretíssima. Pobre adora luxo, enquanto para o intelectual o poder está em outra coisa. O poder não é pegar uma arma, pisar no maior número de empregadas domésticas possível, fazer parte do Estado ou ter dinheiro para comprar justiça a granel nos supermercados dos tribunais. O poder, para o intelectual, vai além. É existencial, é transcendental a esse lixo todo. Não, não são homens de uma ideia! Mas a classe C não é intelectual e está longe disso. Para eles basta um bom emprego público, uma casa de alvenaria, uma TV de 32 polegadas, uma geladeira frost-free e um carro na garagem. Se chegarem lá, no topo da pirâmide social, precisam ter dinheiro suficiente para preencher o tempo e nunca terem tempo ocioso para se perguntar: “ok, e agora?”.

Sinceramente, se uma dessas milionárias forem sequestradas ou assaltadas iria me sentir melhor. Iria sentir que não sou o único ofendido por essa Provocação.



Cena do programa Mulheres ricas

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Quando se viveu

Na associação brasileira das associações brasileiras de coisa nenhuma trabalhava Jack. É assim que ele gostava de designar o local onde definhava há quatro anos, o qual não vale dar propaganda gratuita neste texto. Os sonhos nutridos pela sua faculdade de jornalismo o deixaram assim, sarcástico, um pouco amargo e, raramente, honestamente alegre. Na maioria das vezes era cínico. Na verdade, relacionar essa personalidade, por vezes até rabugenta com as desilusões acerca do jornalismo, seria uma pretensão muito grande, especialmente por parte do jornalismo. A vida se encarregou, com todas as suas nuances cruéis, de fazê-lo assim. Mas nem tudo era tristeza, no fundo gostava de viver, embora soubesse que as coisas poderiam ser muito melhores com um pouco mais de boa vontade, sua e de todo mundo.
Não gostava muito de se relacionar, a não ser sexualmente. Assessor de imprensa de um bando de empresários corruptos associados. Parecia piada, escrever releases sobre as benesses do associativismo e do trabalho cooperado. Gostava do caos, e somente ele, na sua vida pessoal ou profissional - as quais tinha o cuidado de separar rigorosamente para não engolido, ou melhor, digerido, já que engolido já havia sido – pelo sistema. Não o sistema político. Não gostava de falar disso, se sentia um manipulador ou “panfletário”, como era acusado de ser nos tempos de militância. “Posso ser religioso ou político, nutrir ideologias que já nem acredito, apenas para testar o meu poder retórico”, dizia nas conversas de buteco com seus poucos amigos. Quando bêbado ou chapado de qualquer coisa ficava ainda mais sarcástico, mas o cinismo, milagrosa e repentinamente, desaparecia, fazendo-o bater o recorde e inimizades por hora. “Não preciso ser cínico fora do meu horário de trabalho”, justificava com orgulho. Por seus problemas relacionados à humanidade em geral, acabava se fechando, tornando-se uma espécie de autista por opção. Lia muito, assistia muitos filmes malditos tanto pela galera “pop” como pela galera “descolada e cult” - agora os hipsters, como virou moda chamar - do cinema. Gostava dos rótulos concedidos pelos seus amigos de ocasião. Era o rabugento, o do contra, o chato, o teimoso... alguns poucos chamavam isso de personalidade. A verdade é que pouco importava, desde que houvesse uísque e fumo suficientes para afogar as mágoas de suas epopeias solitárias madrugadas a fio.
Jack, cujo nome era Jackson – do qual evidentemente não gostava, como quase tudo que não era uma decisão pessoal e unilateral sua, também se sentia bem com o poder concedido pelo jornalismo. Embora sem reconhecimento, se divertia com os puxa-sacos de plantão e as garotas que queriam lhe dar, jurando que tinha algum dinheiro e prestígio. O fato de ser um rapaz bem apessoado não era de todo ruim quando a busca era por sexo, mas incomodava profundamente quando, raramente, se interessava por alguém. Acabava que não acreditava que alguém pudesse gostar dele sem aquela carcaça que a sociedade, por capricho e pela necessidade de criar um padrão de beleza, achava agradável. Lembrava sempre o melhor conto de todos os tempos – talvez por ser a sua desvirginização no mundo literário mais sangrento, que era “A mulher mais linda da cidade”, do Charles Bukowski.
Na cidade interiorana onde morava desde que se formou e brigou com os pais, era conhecido como um profissional competente, o que lhe provocava sentimentos contraditórios. Ao mesmo tempo precisava daquilo para ter o que sua natureza selvagem mais desejava e por outro lado se sentia, cada vez mais, afastado dela. Tentou terapia. Não deu. A única coisa que o fazia menos angustiado eram as drogas legalizadas ou não pela poderosa indústria farmacêutica. Por isso, todos os dias orava para o São Rivotril, ansiolíticos derivados e anfetaminas.
Em um belo domingo de outono, algo o despertou de repente. Algo lhe apertava o peito. Como não era a primeira vez, já conhecia os procedimentos. Tomou duas generosas doses de uísque e saiu. Eram 11 horas da manhã. Na praça não havia muitas pessoas. Nem crianças. Simpatizava com os pequenos, o que deixava muitas dúvidas quanto à sua verdadeira repulsa pela humanidade. “Crianças são como anjos puros, não contaminados pela mediocridade da massa”, é o que dizia, enquanto jogava panfleto ao vento. Ficava, portanto, genuinamente indignado, quando via alguma criança sofrendo. A vontade era de matar, embora não fosse capaz de matar uma mosca. “Mas qual a diferença entre uma mosca e um ser humano? Não sejamos tão corporativistas!”. Sentou no gramado e acendeu o primeiro cigarro do dia. Era sempre o melhor. No outro lado da praça, uma garota que aparentava seus 18 anos lhe chamou atenção. Era linda, de uma beleza diferente dos padrões impostos. Alguns poucos minutos depois, chegou um garoto malhado pelo padrão do esforço físico e não mental, que mais parecia um rinoceronte, e sentou do lado dela. Perdeu a atração. “Ora, ora, se esse tipo lhe apetece, não me serve”, pensou num misto de falso orgulho e a real covardia que lhe acompanhava desde tenros tempos quando sofria o que a sociedade atual chama de “bullying”. Acendeu o segundo cigarro e levantou meio desajeitado. A ressaca fazia efeito. A pressão baixou e escureceu. Como se sabe, a atividade cerebral, mesmo no desmaio leve, permanece. No momento foi para outro mundo paralelo. Numa praia deserta, a garota apareceu. Ele, como um editor da sua própria vida, tentou apagar rapidamente.... piegas demais! Não conseguiu. Ela chegou perto de Jack e sorriu um riso que iluminou o sol. “O que você quer?” A garota permaneceu com a mesma expressão, como se dissesse que “se você não sabe, como saberei?” Ele entendeu e até esboçou um sorriso tímido. O mar se agitou de repente e ele acordou. Não sabe quanto durou isso tudo, parecia eterno, mas a racionalidade dos acordados logo voltou a sua mente. Olhou em volta. A garota ainda estava lá com o rinoceronte. Levantou, dessa vez com mais cuidado, e seguiu o caminho. Quatro passos depois percebeu sua camiseta queimada do cigarro que, provavelmente, padeceu ali durante o desmaio até apagar. “Eu poderia ter incendiado”, sorriu quando imaginou a patética cena. Idiotas podem morrer de toda forma, qualquer tropeço no cotidiano e já era. A fragilidade da vida era espantosa, embora adotasse uma postura totalmente blasé quanto a isso. O uísque e fumo em excesso e os eventuais baseados de haxixe que o digam.
Comeu um resto de massa que havia na geladeira, abriu a última cerveja e deitou um pouco. Estava quase revigorado, quase vivo. Domingo sempre era um dia complicado. Sofria por antecipação com o início de mais uma semana de entediante trabalho. Para dormir, ansiolíticos e álcool. “Jackson, um dia você não vai mais acordar”, disse o médico em uma oportunidade. Tudo bem, nem era de todo mal. Talvez quem mais sofresse fosse o bar perto de sua casa, onde ia diariamente tomar generosas doses de uísque vagabundo e conversar com os outros bêbados desiludidos. No sofá surrado do tempo, dormiu. Um cochilo leve, mas o suficiente para trazer a garota de volta. Dessa vez, um contato mais próximo. Estava semi-nua, somente com uma cinta-liga vermelha e segurando uma garrafa de uísque. Finalmente, um sonho bom, nada piegas, mas que, provavelmente, acabará em um polução no pobre sofá. E foi isso. Não houve sexo, apenas olhares, mas foi como se houvesse. Acordou ainda excitado o bastante, mas preocupado com a sujeira que havia feito. Foi até a cozinha, olhou o pano, o balde e pegou o cigarro. Fumar um cigarro e tomar mais um uísque antes da labuta, nada mal. Foi o que fez. Depois, enquanto limpava o sofá – “porra, eu pareço um elefante gozando. Nunca vi elefantes gozando, mas deve ser assim, enfim” -, pensou na garota. Precisava dela, não somente para sexo, mas por uma questão de sobrevivência. O simples fato de pensar nela o alegrava de uma maneira inexplicável até para o narrador dessa estória.
Ligou para uma “amiga”, dessas nascidas para serem saciadas e saciar desejos instantâneos. “Jack, só preciso me desvencilhar do Rui – era o seu marido – e já vou aí”. Provavelmente inventaria algum passeio com as amigas, como de praxe. Ah, o amor. Não entendia como se podia casar e viver desse jeito. Não era, necessariamente, um conservador, mas não entendia uma relação que era para ser honesta vivendo de mentiras convenientes. Alguns chamavam isso de moralismo. Ela dizia que Rui desconfiava, mas não tomava nenhuma atitude, nunca nem ao menos a perguntou sobre isso. É bem possível que fazia o mesmo, justificando com jogos de futebol semanais com os amigos. Eis a conveniência que deixa o mundo ainda mais sujo na ótica de Jack. Pouco menos de uma hora depois, tocou o interfone. Era Joana. Estava gostosa, com uma mini-saia verde e a barriga, nem malhada demais nem gorda – ideal, à mostra. Serviu uísque para os dois. Ela gostava de misturar com água, já sabia. As mulheres, geralmente, para justificar o sexo, precisavam beber. Se o álcool não fosse o suficiente para afogar a culpa, se fingiam de bêbadas e ficava tudo certo. Ficaram conversando sobre amenidades por um tempo. Joana era publicitária e tinha ideias horríveis, que geralmente rendiam algumas discussões, por vezes ásperas. Mas, quando esses assuntos polêmicos se avistavam, Jack partia para cima e iniciava os trabalhos. Não dava para conversar, era a parte mais dolorosa do relacionamento dos dois. “Ah, esse Rui, além de corno, deve ser muito idiota para conseguir estar casado com essa debilitada mental por tanto tempo”. Rui e Joana formavam o típico casalzinho alternativo perfeito. Ele brincava de cineasta e produzia uns curtas terríveis. Lembro de um filme dele, que Joana me fez olhar. Falava sobre uma mulher de idade que fazia programas para sustentar a faculdade do filho. Um dia o filho foi no prostíbulo onde ela trabalhava e a pegou trepando com um colega. Matou o colega e a mãe. Assim, um clichê, meio atarantinado, metido a besta e com pitadas cults e engajadas que soavam um tanto quanto desesperadas e fora de contexto. “Sempre odiei Tarantino, mas sempre conseguem piorar. Aliás, acho engraçado, como existem alguns artistas talentosos com fãs tão imbecis”. Sabia que se existe alguma coisa no mundo que não tem limites é a imbecilidade. Seja ela de que cor ideológica for. Joana era insaciável, gostava de trepar de tudo quanto é jeito e gostava de chupar quando estivesse quase gozando, para tomar o esperma ainda quente. “Ok, agora você pega o táxi, eu pago a corrida. Vai para a casa? Então são os mesmos 15 reais, né?”. Já sabia o valor, era a puta mais barata da praça e nem era de todo mau, só não podia conversar, mas isso nem era lá o maior hobby de Jack. Ele pagou e ela se foi. Sempre torcia para a noite passar depressa. Se tem que iniciar tudo de novo, que inicie logo. A agonia, que a primeira vista pode ser exagerada, era justificada pelo medo do tédio e pelo fato de que, mesmo inconscientemente, Jack estava se acostumando a ele. Tomou sua boleta e adormeceu. Dessa vez, o álcool e o remédio o fizeram dormir sem sonhos. Achava tão triste não sonhar, mas só haviam dois caminhos a escolher sempre: ficar acordado ou dormir e, em ambos, não poderia sonhar.
Na manhã seguinte fez tudo como sempre. Escovando os dentes quase vomitou. Passou a mão no cabelo, o que não seria uma forma muito usual de pentear, mas ele não era nada usual. Vestiu a roupa meio surrada, pois não precisaria se preocupar com a sua imagem hoje, já que não havia nenhum evento externo, onde a orientação era se vestir como um milionário, mesmo recebendo como um mendigo. Escreveu dois releases meia-boca e a manhã passou arrastada a base de cafeína e muitos decibéis nos seus fones de ouvido. O repertório de Bob Dylan, Johnny Cash, Willie Nelson e, eventualmente, um punk e hardcore para evitar fechar os olhos e descarregar completamente a bateria. O tédio funcionava como uma criptonita para um super-homem. Sabia-se subjulgado, mas precisava daquilo. A tarde também passou voando. Foi informado que no outro dia teria de ir num evento importante, que reuniria importantes lideranças empresariais e dos sindicatos patronais. Teria de ir com seu terno, que custou quase metade do seu salário de um mês. Já sabia o que escrever, antes de ir. Para tornar tudo um pouco mais divertido, pensou, certa vez, em fazer uma página na internet, anonimamente, onde escreveria suas reais impressões sobre os eventos. Aqueles sorrisos amarelos, aquelas conveniências, os tapinhas nas costas, um jogo de cartas bem marcadas, secularmente marcadas e imaculadas pela cultura do egocentrismo. Mas não daria certo, já que seria muita coincidência o anônimo escrever, sempre, o contraponto das suas pautas designadas. Morreu a ideia, como morreu muita coisa, e muita coisa ainda viria a morrer. A morte era a única verdade, não a física, mas a espiritual. Sentia como se o mundo estivesse expulsando sua alma do corpo, matando por inanição o espírito inquieto e rebelde que ainda se fazia presente ali. Às vezes se sentia como um leão enjaulado em uma gaiola, e se sentia revigorado pela percepção. Também não seria muito legal largar tudo e viver como hippie, sonhando sonhos que jamais terão tempo para serem realizados. A única guerra Justa que o homem conheceu! O alimento da alma eram os finais de semana, regados a sexo, drogas e rock´n roll, aquele clichê que salva e, ao mesmo tempo, o deixava perto da morte. O limite, justamente esse, era seu amigo. O grande problema do limite é que, por ser tênue, era uma linha imaginária que podia ser ultrapassada facilmente e aí já era. Seu corpo seria comido pelos mesmos vermes que comeriam os covardes, os defensores do status quo e toda a corja de moralistas bestializados que habitavam o planeta. Tudo, igualmente, apodrece embaixo da terra. “Sou um bicho feito de ódio pela falta de amor”, dizia. Durante o trabalho, sua alma ia esvaziando. Tinha medo que um dia ela esvaziasse totalmente e não houvesse mais como a recuperar nos tempos de liberdade. Na sua última coma alcoólica, quando estava bebendo sozinho em casa e acabou tomando uma garrafa e meia de uísque sem se alimentar, quando desperto, o médico sentenciou: “Jackson, ou você para com esses excessos ou vai morrer. Não existem mais opções. É a terceira vez que você aparece aqui semi-morto”. Apesar de saber que, a ideia corrente na maioria dos casos, é que agir como um morto é ser saudável para aqueles homens de branco, se chocou. Ah, odiava que lhe chamassem de Jackson e, geralmente, quem o chamava assim também não simpatizava com ele. Pura coincidência. Depois desse tempo, que foi feio, com alucinações, pânico de tudo e esquizofrenias, ele resolveu parar de beber, ao menos nos dias de semana. Durou pouco tempo e já estava entregue. No fundo, por mais que quisesse viver, a sua natureza era a autodestruição. O mundo já não o suportava, e isso era recíproco. Tinha surtos da chamada lucidez e se tranquilizava - mas somente até o próximo pensamento. O pensar era como um câncer que ia destruindo Jack. E se uma lobotomia o salvasse? Nada disso. Era um jovem competente e fazia tudo, rigorosamente, como o sistema de vida lhe pedia. No fundo, um conservador, um moralista rebelde que seguia a sua cartilha.
Recém segunda-feira. Pelo menos as noites costumavam serem mais tranquilas nas segundas. Tomou o seu uísque controladamente, já não passava das quatro doses generosas diariamente, e resolveu por sonhar. “Essa noite, eu vou sonhar, nem que arrisque não ter sono. É um risco e os corajosos gostam de desafios”. Esse foi o maior desafio de Jack desde que era punk e explodiu um molotov na sede de um partido neofascista. O relógio era implacável, 2, 3, 4 da manhã e eis que ele tem um breve cochilo. Era o mesmo mar revoltoso da primeira vez que havia visto a garota da praça, mas dessa vez ela não estava lá. Foi em direção às águas como que para tentar o suicídio mais uma vez, sabia ser um sonho afinal... mas, sabia também, que na projeção não poderia morrer, sob o risco de não voltar mais, como ouvira nas histórias (ou estórias) dos velhos. Com água na altura do peito, o mar, repentinamente, se acalmou. Era como se a natureza apenas o quisesse despertar uma coragem, uma segurança há muito adormecida. Ficou um tempo ali, nadou e até sorriu para o Nada.
Acordou, surpreendentemente, feliz. Escovou os dentes sem a ânsia habitual, passou a mão no cabelo e passou a se vestir. Ternos são complicados. A gravata ficava sempre ali, com o nó que dera na primeira vez que usou. Não sabia fazê-lo novamente. Partiu para o trabalho. Cumprimentou seus colegas, deu tapinhas nas costas dos empresários, distribuiu alguns sorrisos em resposta e sentou num lugar estratégico para fazer boas fotos que maquiassem e deixassem bonitos aqueles homens que não passavam de porcos vistos pelos seus olhos, com raríssimas exceções. Apenas um dos palestrantes do dia lhe nutria alguma simpatia. Era um velho, um dos fundadores da associação em que trabalhava, um idealista que ainda acreditava que estava fazendo um bem. Na frente de João Carlos, o velho, todos eram só elogios e sorrisos, mas em outros círculos ele não passava de “um velho gagá que estava atrapalhando o pragmatismo dos negócios”. Era o último palestrante do dia, que seria longo visto todo o lixo que teria de ouvir antes. Menos mal que já conhecia os discursos de cór, motivo pelo qual ainda estava empregado, já que no mercado trabalhavam pela metade do valor que ele recebia. Prostituir o cérebro é uma arte para poucos, mas mesmo assim muitos tentavam. O mercado estava saturado de putas baratas, mas sem nenhuma habilidade. Quando deviam rebolar para o gozo do cliente, pecavam. Já estava quase pegando no sono quando, do outro lado da sala, ele avistou uma garota loira, que lembrava aquela da praça. Não tinha certeza. Estava “bem” arrumada, com um desses ternos femininos que fuzilam qualquer traço de feminilidade. Eis o feminismo moderno com todo o blá blá blá da independência financeira. As mulheres querem parecer homens para conquistar o respeito do gênero... Como artifício para chegar mais perto dela, Jack pegou a câmera e foi se posicionar mais a frente. Atravessou a sala e parou do lado. Tirou uma ou duas fotos aleatórias, mal focadas, nervosas demais... Era ela. Jack, apesar de saber-se atraente para alguns tipos de mulheres – geralmente as menos interessantes -, ficava tímido nessas situações. Lembra sempre de quando era mais um pré-adolescente espinhento que nenhuma garota queria dançar ou, ao menos, chegar perto. Sua personalidade se desenvolveu com a rejeição, o que não foi de todo o mal, já que criou uma proteção natural contra pessoas inconvenientes, além de o ter levado ao mundo da contracultura. No início foi complicado, queria fazer parte do mundo dos descolados, dos populares, mas depois viu que não tinha jeito e se afastou. Foi doloroso. Perdeu a virgindade com um aspirador de pó e só foi beijar a primeira garota por volta dos 15 anos, quando seus colegas, ao menos nos papos de colégio, já tinham comido até as professoras mais gostosas. Logo percebeu que não fazia parte disso tudo, desse mundo meio morto e iludido, e se aproximou das ideias mais rebeldes. Conseguiu tudo nesse meio, drogas, garotas e rock ´n roll, de forma que não precisava de nada mais para encarar a vida de frente, sob a sua ótica própria. Passou a ver o mundo mais “pop” com asco e sem muita habilidade ou paciência. Sofreu muito por isso até que começou a aprender a jogar. Jogar não é uma atitude louvável, mas era a forma de não se tornar um serial killer. Virou uma espécie de bicampeão, ganhando a vida nos dois mundos. Os conflitos, evidentemente, eram inevitáveis. Aí entravam os remédios, as terapias, os excessos com álcool e drogas e as suas experiências mais malucas também. Tinha, finalmente, vivido mil anos em 10, o que deixou sequelas severas no seu corpo, especialmente no fígado. Coragem, Jack. O mar ficou nervoso novamente, mas quando entrar, vai se acalmar e acolher seu corpo com suavidade. Mas a realidade implacável é que até a sua abordagem tem que ser tosca. “Interessante a palestra, né?”. “Eu não estava prestando atenção, o que ele disse sobre a evolução do mercado de fitas isolantes?. “Ah, errr... não peguei também”. Ela riu, aquele mesmo riso de canto de boca, que iluminou o sol e agora iluminava aquela sala cheia de porcos e seus criadores. Ela dizia algo que ele não conseguiu ouvir, tudo parou, somente a boca da garota se movimentava. Se atravessando num assunto que nem sabia qual era, ele perguntou o que ela fazia ali. “Eu sou relações públicas do Arnaldo Gomes Júnior, que fará a próxima apresentação”. “Sobre o que ele vai falar?”, perguntou tentando fingir interesse. Diga-se de passagem, era péssimo nessa arte. “Ele vai dar o case da empresa, sobre como conseguiu inovar nos produtos e aplicar o conceito de sustentabilidade”. “Ah, interessante. O mundo precisa disso, né? Aliar a atividade empresarial com as questões ambientais”. Nem ele acreditou em tamanho cinismo. O meio ambiente nunca esteve na pauta da indústria, a não ser agora, quando a precariedade começa a preocupar o futuro dos negócios para seus filhos, netos e demais descendentes. A cultura alimentada pelo capitalismo nunca será compatível com a preservação do planeta, isso era um fato. Tanto que todos os empresários que falavam em sustentabilidade, falam em diminuir os impactos ambientais dos seus negócios, mas nunca acabar com eles. O ser humano era um câncer maligno tratado com remédios fortes que dava uma sobrevida ao planeta. Mas, no fim, era uma questão de tempo para tudo explodir. A única ideia que parecia plausível era começar tudo do zero, saindo desse círculo vicioso de hedonismo torto e morte. Ela ficou em silêncio por um minuto que pareceu eterno, até que Jack disparou gaguejando: “Vamos tomar um café enquanto não começa a palestra do Arnaldo?”. Ela aceitou e eles saíram do auditório para o hall. Ela foi na frente. Não tinha reparado como era gostosa. Uma bunda não muito grande, mas perfeita na forma. Usava aquelas calças com tecido leve. A calcinha, marcada, fazia um V perfeito até o centro daquelas duas perfeitas nádegas. Ficou com um tesão maluco, mas precisou se controlar para que ela não notasse aquele desconcerto. Não podia estragar tudo o que estava dando certo. Ela chegou na térmica e o serviu café. Tomava sem açúcar, assim como ele. Papo de elevador não merece ter uma linha aqui. Ambos encarnando personagens, de forma a conhecer o terreno, com alguma poucas jogadas mais arrojadas. No final do papo, quando já se dirigiam para o auditório, ela comentou que “finalmente teria um show de rock legal na cidade”. Jack não sabia do que se tratava, então perguntou. “É a banda dos Micos raivosos, de São Paulo. Eles tocam aqui no final de semana”. “Não conheço muito o som, mas já ouvi falar bem”, mentiu. “Então, você não tá afim de ir? Os ingressos devem se esgotar entre hoje ou amanhã, já que o lugar é pequeno. O preço também é bom para uma banda de fora do Estado, 20 reais”. “Onde eu compro?”. Ela se ofereceu para fazê-lo, desde que se encontrassem amanhã, na praça. Na praça? É, aquela mesma praça, a única da cidade, onde crianças disputavam espaço com os maconheiros. “O seu namorado vai?”, disparou para ver o que acontecia. Ela disse, vermelha. “De onde tu tirou que tenho namorado? Sou muito mais chata do que pareço dentro desse terno”, brincou e sorriu novamente aquele mesmo riso. Combinaram de se encontrar depois do expediente no dia seguinte e foram para o auditório. Quando se separaram, Jack percebeu que não tinha nem perguntado o nome da garota. Mera trivialidade, na verdade, mas que era importante nas relações sociais. Ela nem ao menos havia pego o dinheiro com ele para pagar o ingresso. Pareceu muito interessada, por isso, pensou ele. As coisas estavam andando num rumo positivo. Não conseguiu prestar atenção em mais nada. Nem tirou fotos. A palestra acabou, era a última. E ele só tinha escrito no seu bloco: “palestra: Arnaldo Jr. Diretor da Isolantes Arnaldo. Isolantes sustentáveis”. Putaquepariu! Como faria uma matéria com isso? Tratou de não pensar, pensar no calor do terno e na sua vontade de tirar logo aquela corda em forma de gravata do pescoço. Pegou o carro e partiu. Não a viu mais nesse dia.
Chegou em casa e acendeu um cigarro enquanto servia uísque. “Hoje vou chutar o balde, fumar um baseado e tomar muito mais uísque”, disse para si mesmo. Estava estressado, nervoso... pensava na garota. Fechou o seu baseado e tentou viajar no cosmos visto da sua janela. Mas ela voltava, invadia seu espaço sem a menor cerimônia com aquele sorriso. Começou a mexer no pau por baixo das calças e logo já estava se masturbando furiosamente com aquela lembrança linda da bunda da garota. Até punheta com essa paixão é melhor do que o sexo sem tesão que já fizera algumas vezes e que era uma violência sem precedentes. Gozou logo e foi limpar. Continuou no uísque até adormecer. Acordou as 4 da manhã com larica e foi procurar algo na geladeira para comer. Tinha uma fatia de pão, margarina e uma fatia de queijo. Se não fosse aquilo teria que fazer alguma coisa e, a essa hora, preferiria a fome. Comeu e foi deitar novamente. Mal fechou os olhos e já era hora de abrir novamente.
Quarta-feira. Seguiu o mesmo ritual de forma surpreendentemente animada. Chegando no trabalho, ligou o computador e lembrou que não tinha nada anotado para a matéria. “Jackson, preciso desse material no site o quanto antes“, disse o chefe dele, um velho jornalista que, provavelmente, e diferentemente de Jack, jamais deve ter tido algum idealismo a não ser o seu umbigo nem quando entrou na faculdade de jornalismo. Achou que ia ganhar dinheiro e se embrenhou com aplicação abnegada ao trabalho. Logo, puxando o saco das pessoas certas, subiu de posição e era seu chefe hoje. Não chegava a ser autoritário, mas era “caxias” demais. Tentou escrever alguma coisa, mas, além de não ter nada para escrever, seu pensamento era disperso. Pensava no final do expediente, no que diria à ela. Fez um texto horroroso, buscou informações sobre a empresa na internet e pronto. Nunca, profissionalmente, lhe exigiram mais do que ele próprio. Um cão bem domesticado, dava para se dizer. Seu chefe olhou por cima e mandou publicar. “Está ótimo”! Tinha alguns problemas com autoridade, esse negócio de mandar e ser mandado não era com ele, embora até hoje só tivesse sido mandado. Se imaginava como chefe e já via que não daria certo. Certa vez o Roberto Freire, o psicanalista anarquista, criador da somaterapia, e não o boçal político, disse que o mundo só poderá ser anarquista quando todas as pessoas forem anarquistas. Fazia sua parte e sem esforço. Era intrínseco. Não dava valor às coisas materiais, com exceção do uísque, da maconha e do fumo. Esquecia coisas que para ele eram irrelevantes, mas que para a maioria das pessoas era essencial. Não fazia parte e, como já disse o narrador, não fazia a mínima questão de fazer. Regados a uísque, os dias iam passando sem muito sentido. A única meta era o salário no final do mês para abastecer o corpo, já que a alma era cada dia mais escanteada pelos torpedos de sutilezas do trabalho, dos falsos amigos e todo o tédio decorrente dessas relações humanas. Mas, era inegável, que sua alma era inflada algumas vezes com a lembrança da garota que nem tinha algum registro oficial na mente dele, a não ser o sorriso e a possibilidade do novo encontro. Pouco importa, nenhum nome, nenhuma carta, nenhuma foto, mas no final das contas, se mantém algo vivo. A vida, nada mais é, do que memória e consciência.
O relógio mal bateu às 18 horas e já estava na rua. Fazia um pouco de frio, que ficava mais intenso com a garoa que começava a cair. O dia feio contrastava com a felicidade de Jack. Mas era uma felicidade nervosa. Tinha vontade de parar em cada buteco que passava, até que chegou na praça. A garota não estava lá ainda. Algumas crianças de rua brincavam animadamente nos balanços, se empurravam na areia. Ficava pensando em como as crianças ricas, apertadas nos apartamentos, sob as grades da proteção, deviam invejar esses “vira-latas” que, livres, faziam o que bem entediam. O mundo era perigoso, se sabia, mas viver nunca foi uma arte fácil. Certo que o mais covarde era se esconder. Avistou a garota. Vinha linda, apesar de estar com muita roupa, exagerada... “Oi....”, ficou vermelho por não saber o nome dela, que ela completou: “Mônica”. “Ok, oi Mônica, conseguiu comprar os ingressos?”. “Também não sei seu nome”, disse sorrindo de um jeito tímido fazendo que não havia escutado a pergunta. “Jack, meu nome é Jackson, mas....”. Ela não o deixou completar e o entregou o ingresso. Sentia uma frieza no ar, um controle exagerado, como se fossem acionar uma bomba atômica a qualquer momento. Lhe entregou o dinheiro e começaram com o velho papo de elevador, até que tiveram a excelente ideia e ir tomar uma cerveja. Mônica comentou que não gostava do seu trabalho logo depois da segunda cerveja. Se media o nível de ódio através da resistência. Ela quase não resistiu ao álcool, sinal de que realmente odiava o seu trabalho. Não era fraca, pelo contrário, como viria a perceber. “Também não gosto do que faço. Quando comecei achava que poderia mudar alguma coisa, mas percebi logo que as coisas não são assim. Se trabalha pela ideia dos outros, se vende a ideia dos outros, nunca a sua, a não ser quando se tem uma muito bem aceita pelo status quo do patrão, o que não é meu caso. É uma prostituição intelectual”. Parou repentinamente de falar com medo de assustar a garota. Mas ela continuou o assunto. “Pois é, eu também não gosto disso, mas preciso trabalhar para pagar a minha faculdade”. Ela estava no segundo semestre da faculdade de Relações Públicas. “É públicas, não púbicas”, brincava, ironizando a condição de algumas coleguinhas e concedendo, de brinde para o universo, aquele sorriso. Ela tinha 20 anos e morava com os pais. Não era tão rebelde quanto ele com essa idade, mas tinha muitos indícios de não adaptação, o que agradou Jack logo de cara. Na quinta cerveja, resolveram pela saideira. Ela tinha horário para estar em casa. Já estava um pouco alterada. Se fosse qualquer outra garota, era o momento de atacar, mas não era qualquer garota. Foi praticamente santificada aquela noite, por razões além de qualquer explicação racional. Nada é muito explicável, quando se trata de sentimentos, então... e ele tinha isso muito claro. Pelos seus preconceitos, sua cartilha que lhe foi moldando com o tempo, as garotas pelas quais se apaixonava verdadeiramente não poderiam dar na mesma noite. Mais uma dose de moralismo com uísque. Ficaram conversando mais um pouco, trocaram telefones e se despediram. “Até sábado, Jack”, disse. Não foi nem um beijo no rosto. Aquele clima de guerra nuclear, que estava sendo afogado nas cervejas, se fez novamente. Ele não forçou. “Até, Mônica”. Deixou ela se virar primeiro. Muita roupa! Foi para a casa, mas, antes de chegar, parou no buteco vizinho para tomar mais uma cerveja e conversar com os bêbados. Estava leve, sociável até. “Eai, Jack, que cara boba é essa? Vai tomar uísque?”. O dono do bar era um sujeito bacana, desses que bebiam o estoque e apanhavam da mulher. Ela era uma velha gorda, que tinha uma verruga enorme na ponta do nariz. Parecia daquelas bruxas do Walt Disney e todos os seus clichês. O comportamento também era semelhante, como, às vezes, João confidenciava. Apanhava e, como um homem de verdade, não fazia nada além de tentar segurar as mãos descontroladas da mulher. Os hematomas não o impediam de estar quase sempre sorrindo e, sistematicamente, bêbado. Era, como os juízes penitentes mais moralistas julgavam, um perdedor. Mas nem fazia questão de ser diferente. Jack admirava isso, pois era um também. A vida, da forma que ia, dava a vitória para os mais fracos, os mais boçais e idiotas que conseguiam prosperar de alguma forma com seus carros, suas ideologias e seus empregos conquistados com muito suor e leite das tetas. Ele mesmo atendia no bar que mantinha há mais de três décadas. Coisa de cidade do interior. Os mais velhos se conheciam e Jack foi adotado, como um filhote bebum perdido, como de fato era. “Vou tomar uma cerveja, doutor. Me dá a mais gelada que você tiver aí”. Foi atendido. Conversou um pouco. No bar também estava o Pedrão, um bêbado que foi expulso de casa por motivos que nunca ficaram muito claros. Para sacaneá-lo, dizíamos que era porque o azulzinho já não fazia mais efeito, mas provavelmente era pelo abuso do álcool. As pessoas nunca entendiam os desistentes, nunca entendiam que o álcool em excesso era um pedido de ajuda para não continuar com aquele suicídio desesperado. Ele estava, como se diz, empedrado. Olhar fixo no nada, que batia na parede. Mas era nítido que se podia ver muito além daquela parede suja e cheia de fotos dos encontros anuais dos amigos de copo. Ficou um pouco lá e foi embora. Logo adormeceu, nem precisou dos remédios. O amor é uma droga poderosa, sim.
Os dias passaram de forma normal, com muito tédio, café e uísque. O rock n´ roll, como sempre disse o nosso anti-herói, era uma das suas amantes que acompanhariam pelo resto da vida. Era uma segurança que, misturada com o álcool, o transformava num super-homem de dar inveja a Nietzsche. Embora tivesse a consciência de que a menina deveria ser legal e tudo mais, tinha a certeza de que, se tudo desse errado, a sua predestinação alcoólica e roqueira o salvaria. O único deus que aprendeu a amar depois de toda a subjulgação do mundo.
Xeque-mate
Chegou o tão esperado sábado. Na sexta-feira, como precaução para estar vivo no dia seguinte, não bebeu um gole de uísque e foi dormir com suas boletas. “Mamãe ficaria orgulhosa”, pensava. Queria dormir o dia todo e só acordar na hora de sair, pois quanto antes levantasse da cama, mais cedo tomaria o primeiro uísque. É evidente, não sabia lidar muito bem com essas situações, mas sabia que não poderia ficar muito bêbado antes do show, marcado para as longíquas 23 horas. Tarefa árdua, ainda mais quando se regride a uma idade de 10 anos quando o assunto é autocontrole.
A casa antiga onde ocorreria o show era cheia de história. Grandes contestações tinham nascido ali naquele caos sonoro e de ideias libertárias. Nas paredes bandas como Cólera, Olho Seco, Ratos de Porão, gente com sangue nas veias como o Raulzito - que tocou num dia em que estava tão bêbado que vomitou num desses fãs de tudo e de nada. O atendente do bar, que estava naquele dia de 1983, disse que o cara estava pedindo parar um cover do Jerry Adriani. Mas o preço já não comportava muito dessa atitude rock n´ roll e hoje tinha quase um segurança para cada pessoa. Os malucos tinham medo ultimamente, ao mesmo tempo em que se proliferavam os ratos bem alimentados da cultura embalada pela indústria de cultura, de culpa, do medo e do limite. O fato foi o suficiente para que, em pouco mais de cinco minutos de atraso de Mônica, Jack estivesse se sentindo um neurônio fora do grande bacanal de bestialização atual. Já era o terceiro uísque, muito bem pago ao bar, e nada era possível de o fazer mais confortável na bancada.
Uma cabeça loira lá fora, dava para espiar pelo vão da porta, poderia ser ela. Nada, era uma loira gostosa, mas que tinha um buraco na cabeça, onde havia uma sonda imaginária, produto da cabeça de Jack. Não, não era o uísque, que nem tinha lhe proporcionado aquela alegria sem medo de ressacas de toda espécie, era o maldito cérebro crítico, herança de algum Gandhi,Marx, Bakunin, Zapata ou Che que esteve perdido na grande floresta tupiniquim nos idos de 1500. Mas que tinha belas ancas, tinha, inclusive aquele “porta dedo”, um traço anatômico presente de um deus generoso que se precise acreditar. Passou zunindo e foi sentar em uma mesa com um desses debilóides pequenos burgueses anencéfalos que vivem às custas dos sofredores pais, mas que exalavam arrogância pelos poros. Todos os músculos eram fortes, com exceção do cérebro, o tipo mais amado pelas nossas garotas perdidas.
Já estava no quinto uísque quando apareceu a Mônica. Ela entrou com uma cara estranha quando começou a tocar uma versão maluca da nona sinfonia de Beethoven, um rock pesado e que dava a impressão sair das caixas na agradável forma de um murro bem dado no cérebro. “Jack, está há muito tempo aqui?” “Há mais de uma hora com certeza, mas eu entendo as mulheres”, mentiu, como sempre. “Desculpa, aconteceram uns problemas”. Ela contou que havia brigado com seu cunhado, que tinha tentado pegar ela a força quando sua irmã saiu para ir ao mercado aproveitar as promoções de fraldas. “Esperou eu sair do banho e ir para o meu quarto. Estava lá embaixo da cama, como num filme de terror. Saiu e trancou a porta atrás de mim. Já estava sem toalha e lembro de ele ter me mostrado uma faca na cintura antes de sussurrar que desde quando eu era muito pequena era tarado por mim e que agora ia descontar todos os anos de controle que ‘fritavam’ a sua mente e coração todos os dias. Tentei fugir e ele me acertou. Desmaiei e acordei com a minha irmã no quarto tentando me acordar. Ela perguntava o que tinha acontecido e eu, envergonhada, travei. Ela me ajudou, me entregou uma água com açúcar achando que era porre. Vomitei o que não tinha para vomitar e comecei a chorar. Nesse meio tempo vi o meu cunhado Carlos na porta, fazendo sinal de que se contasse mataria nós duas naquele momento. Disse que não era nada e vim para cá. Não sei o que faço”
A história era aterradora. Jack perguntou se ela tinha algum sinal de estupro e ela começou a chorar com mais força. Virou as costas e saiu correndo. Foi atrás e esbarrou num armário humano, que tentou brigar. “Ahh, fodam-se seus problemas forjados, zumbi!”. O cara tentou lhe acertar um soco, mas só encontrou o ar. Escutou algumas risadas. Nesse tempo perdido com o mundo, Jack a perdeu de vista. Quando chegou na rua, olhou para os dois lados e nada. Saiu caminhando pela quadra e, logo na primeira esquina, a avistou na calçada. “Fale o que aconteceu, quero matar esse cara. Fale o que ele fez e onde eu o acho”. Mônica não conseguia falar, eram só soluços e lágrimas.
Quando levantou a cabeça, Jack viu um rapaz vindo na direção deles. O homem, que tinha um sorriso sarcástico no rosto talhado por uma cicatriz que vinha de baixo do olho esquerdo até o queixo, perguntou: “O que você está fazendo com a minha garota?”. Mônica olhou para cima e identificou o seu cunhado. “Seu verme, suma daqui, seu covarde!”. Jack levantou rapidamente e tentou soquear Carlos, mas os reflexos não estavam nada bons e ele foi facilmente dominado. “O que você quer boneca? O mesmo destino dessa putinha?”. Mônica foi de encontro a Carlos, que lhe deu um soco que a jogou desacordada novamente na calçada. Não passava ninguém na rua escura para ajudar, e foi fácil para o homem sóbrio terminar o seu serviço. Enquanto Jack tentava se desvencilhar, ele pegou a faca e cortou um dos dedos da mão direita dele. Não havia nada para fazer, Jack só queria acordar do sonho do mar vermelho agitado, sem Mônica. Desmaiou e quando acordou estava amarrado numa árvore e com uma mordaça enorme na boca. Deveria ser próximo do bar, pois ouvia música e via algumas luzes. Carlos estava comendo Mônica, agora já acordada e com uma fita na boca. Ela chorava e se debatia, enquanto o homem trabalhava forte. Tirou o pau da buceta e passou a fodê-la no cu, sem nenhum perdão, enquanto o sangue jorrava vivo de tão morto. Quando terminou de foder, enquanto olhava para Jack com aquele mesmo sorriso insano, pegou a faca e a enfiou lentamente no cu de Mônica que desmaiou de dor imediatamente e afogou todos os sonhos possíveis quando teve o pescoço torcido num gesto rápido, quase automático de maldade. A humanidade perdia mais uma vez.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Hunter Thompson, seu filhodaputa, obrigado por isso:

Trecho de Rum: diário de um jornalista bêbado –
Hunter Thompson

Yeamon, colega de Hunter Thompson, aqui sob o alter ergo de Kemp, fez uma matéria sobre emigração dos cidadãos porto-riquenhos para os EUA. O mestre gonzo ficou responsável por resumir a matéria vazia e extremamente prolixa de 26 páginas em mil palavras...




“Percebi que o motivo real que levava essas pessoas a deixar a ilha era basicamente o mesmo que me fizera deixar St. Louis, largar a faculdade e mandar para o inferno tudo o que esperavam que eu desejasse – na verdade, todas as coisas que tinha o dever de desejar. Tentei imaginar como seria se alguém tivesse me entrevistado no aeroporto Lambert no dia em que fui para Nova York com duas malas, trezentos dólares e um envelope cheio de recortes de minhas matérias em um jornal do exército.

'Diga-me, senhor Kemp, por que o senhor está deixando St. Louis, onde sua família vive há muitas gerações? Onde o senhor poderia, se quisesse, ter um nicho escavado para o senhor e seus filhos, de modo a viver em paz e segurança até o fim de seus dias bem-nutridos?

'Bem, olha só, eu...hã...bem, eu sinto uma coisa estranha. Eu...hã... eu fico aqui sentado, olhando para esse lugar, e sinto que preciso ir embora, sabe? Preciso fugir'

'Senhor Kemp, o senhor parece um homem razoável. O que exatamente faz o senhor querer fugir de St. Louis? Não estou querendo me intrometer, entenda, sou apenas um repórter e inclusive sou de Tallahassee, mas me mandaram aqui para...'

'Não tem problema. Eu queria conseguir...hã...sabe, eu queria conseguir explicar pra você...hã...talvez eu deva dizer que parece que um saco cheio de borracha vai desabar sobre minha cabeça... algo puramente simbólico, sabe... a ignorância venal dos pais surtindo efeito nos filhos... isso faz algum sentido pra você?'

'Bem, há, há, meio que entendo o que o senhor quer dizer, senhor Kemp. Lá em Tallahassee seria um saco cheio de algodão, mas imagino que era mais ou menos do mesmo tamanho e...'

'Sim, é o maldito saco. Então estou caindo fora e acho que vou...hã...'

'Senhor Kemp, gostaria de poder dizer o quanto compreendo sua situação, mas o senhor precisa entender que, se eu aparecer com uma matéria sobre um saco cheio de borracha, vão me dizer que ela não serve para nada e provavelmente acabarão me demitindo. Veja bem, não estou querendo pressionar, mas será que o senhor poderia dar algum dado mais concreto? Algo do tipo, bem, talvez aqui não existam oportunidades suficientes para jovens de iniciativa, sabe? Será que St. Louis está cumprindo com suas responsabilidades para com a juventude? Será que nossa sociedade não é suficientemente flexível para com os jovens cheios de ideias? Pode se abrir comigo, senhor Kemp. Qual é o problema?

'Olha, cara, gostaria mesmo de poder ajudar. Deus é testemunha de que não quero que você volte para a redação sem uma boa matéria e acabe demitido. Sei como essas coisas funcionam... também sou jornalista, sabe...mas...bem...tenho Medo...será que isso adianta para você? St. Louis Deixa os Jovens com Medo – nada mal para uma manchete, hein?'

'Ora, Kemp, você sabe que não tenho como usar esse papo de Sacos Cheios de Borracha e Medo.'

'Mas que diabo, cara. Estou dizendo que é medo do saco! Diga a eles que esse sujeito chamado Kemp está caindo fora de St. Louis porque suspeita que o saco está cheio de alguma coisa horrenda e não quer acabar indo parar lá dentro. Ele percebe isso de longe. Esse sujeito, esse Kemp, não é um jovem exemplar. Foi criado com dois banheiros e futebol americano, mas em algum ponto da história alguma coisa deu errado. Agora tudo o que ele quer é Fugir, Cai Fora. Não está nem aí para St. Louis nem para seus amigos, sua família ou qualquer outra coisa... tudo o que ele quer é encontrar algum lugar onde consiga respirar... assim fica bom pra você?'

'Bem, Kemp, hã... você parece meio histérico, Não sei se consigo incluir você na matéria'

'Bem, então vá se foder. Sai da minha frente. Estão anunciando meu voo. Está ouvindo essa voz? Está ouvindo?'

'Você é um demente, Kemp! Vai acabar se dando muito mal! Conheci gente do seu tipo lá em Tallahassee, e todos eles acabaram...'

'Sim, todos eles acabaram parecidos com porto-riquenhos. Fugiram sem conseguir explicar o porquê, mas queriam mesmo cair fora e não se importavam se os jornais conseguiriam entender isso. De algum modo, imaginaram que dando o fora de onde quer que estivessem conseguiriam encontrar um lugar melhor. Ouviram aquele boato, aquele boato pútrido e demoníaco que deixa as pessoas incoerentes e cheias de vontade de fugir. Nem todo mundo corta cana-de-açúcar por um dólar ao dia ou arrasta um monte de cocos até a cidade, para vender por dois centavos cada um. O mundo faminto, quente e vagabundo de seus pais, de seus avós, de todos seus irmãos e irmãs não é o único que existe, porque se um homem tiver coragem ou até mesmo desespero suficiente para percorrer alguns milhares de quilômetros, existe uma boa chance de que consiga ter dinheiro no bolso, uma barriga cheia de carne e uma vida decente'


segunda-feira, 10 de outubro de 2011

“Todo punk é um inocente” - cobertura dos "dias punks" do Morrostock 2011

A frase do Gerbase foi utilizada por mim para tentar acalmar o receio que ela tinha de ir num show de punk e hardcore. Apreensão que ficou mais evidente depois de uma seção furiosa de Olho Seco, que arrotava niilismo pelas caixas de som, e das histórias mais violentas que contei sobre a minha adolescência rebelde e todas aquelas tretas.
Estava muito animado para cobrir os dias do rock pesado do Morrostock 2011, em Sapiranga/RS. Afinal, além da bagatela de poder assistir algumas das minhas referências sonoras “degrátis” (sic), teria a oportunidade de conhecer pessoalmente figuras como o Índio, Callegari e Hélio, lendas do punk nacional que, depois de fundar Condutores de Cadáver, com o desmembramento formaram “só” Hino Mortal, Inocentes e Cólera. Era uma sexta-feira, do sétimo dia de outubro. Minha energia já havia sido quase toda consumida por uma semana de trabalho intenso, que sempre exige muito do meu talento com as artes c(ê)ínicas. Precisava ir de qualquer forma, então lá vai a anfetamina goela abaixo para aguentar o tranco. Neste primeiro dia de festival, que iniciava às 21hs e se estenderia até mais de 6hs da manhã do outro dia, teríamos, entre outras pancadarias e alguns “circos”, bandas como Condutores de Cadáver e Wall Ride.
Antes de começar a pancadaria, longa conversa com o Callegari e o Índio, sobre o movimento punk da época do surgimento da Condutores – 1979, a atualidade da cena e, claro, a contestação política que ficou bem clara logo na “apresentação” do Hélio para mim: “está tudo legal, fora esse filho da puta do secretário de segurança que encheu de PM e está atrasando tudo”. E realmente, fui parado e perdi alguns bons minutos lá naquela patética demonstração de força do Estado antes de chegar ao Bar do Morro. Como sou um garoto bom – leia-se que paga o IPVA e tem habilitação para dirigir – fui liberado. Mas essa não foi a sorte de muitos que ficaram por lá. “A gente lutou tanto contra a repressão do regime militar para quê? Para a repressão continuar”, emendou Hélio. É, eu estava em casa, estava entre punks.

1 – Qual a formação atual do Condutores?
Callegari
- Estamos com a formação original, com exceção do baterista, o Babão. Callegari na guitarra, o Hélio no baixo e Índio no vocal.

2 – Quais são as influências da banda?
Callegari
- Primeiro Speedtwins, uma banda holandesa. Aí tem uma porrada de outras coisas, como Pink Fainers, NY Dools e Stooges. Do punk nacional a gente cita Restos de Nada.

3 – Como era o movimento punk na época e como tu vê ele hoje, se é que ainda existe movimento punk?
Callegari
- Naquela época, do nosso surgimento – final dos anos 70, era uma cena muito perigosa, com muito ganguismo. Claro que tinha alguma ideologia porque a gente enfrentava a ditadura militar, mas acho que começou mais pela música mesmo. Na época também foram surgindo os carecas do subúrbio, que tumultuaram a cena, estavam mais pela confusão mesmo. Mas se você pegar e perguntar para alguns deles naquela época o que eles conheciam de punk eles não iam dizer mais de três nomes: Clash, Sex Pistols e Ramones.

4 – Nem todo skinhead é fascista. Vocês não escutam Oi?
Índio
- Sim, a minha relação com Oi é quando eu conheço alguém: oi eu sou o Índio (entrado na roda de papo)
Callegari - Sim, existem boas bandas, escutamos Cockney Rejets, Sham 69, Anti Social, 4-Skins...

5 – Como tu vê o movimento punk atual?
Callegari
- É bem complexo, existe uma grande diversidade. A gente não pode pegar e considerar o punk daquela época, porque aquilo realmente não existe mais. Eu me afastei um pouco do movimento na década de 80, porque já não estava mais concordando com os rumos dele. Quando voltamos a tocar, nos anos 2000, vi uma cena completamente diferente, com bandas como Flicts, Hollytree, Blind Pigs e Calibre 12. Eles têm a sua importância porque conseguiram manter a cena. Até bandas como Greenday, Offspring e CPM22 no Brasil, tiveram a importância por isso, mas é um movimento mais musical.

6 – E a contestação política? (perguntei torcendo o nariz)
Callegari
- Cara, eu entendo o que tu quer dizer, mas estamos falando musicalmente. Contestação não tem mais.

7 - Mas tu te consideras um anarquista?
Callegari
– Não, quando a gente vai ficando com mais experiência percebe que isso é muito complexo de se adotar. Hoje o anarquismo é impossível, porque as pessoas não estão preparadas, não estão evoluídas para isso. O próprio comunismo, todo lugar que tentaram implantar foi um desastre, criaram um Estado fascista com uma economia desastrosa. O certo é que o capitalismo também não pode ser. A gente vive numa violência terrível, mas eu não acredito que isso tenha sido causado pela pobreza, porque ela sempre existiu. Acredito que as desestruturações que as crises do capitalismo causaram nas famílias foram muito piores. Lógico que sempre houve criminalidade, mas hoje o que me preocupa é que virou cultura.


Callegari y yo



Morando no Rio Grande do Sul, mais especificamente em Canoas, há mais de dois anos, Índio transmitia uma serenidade raivosa no olhar e chegou para conversar comigo. Pegando o rastro do papo com o Callegari...

8 – E tu, te consideras anarquista?
Índio
– Claro. Muito dessa consciência, veio da minha história. Quase fui gaúcho. Sou filho de índios bugres que moravam em Santa Maria/RS e foram expulsos violentamente em 1943. Os homens foram mortos e as mulheres tiveram que fugir. Minha mãe veio para São Paulo e até hoje tento convencer ela à voltar para o Rio Grande do Sul, mas o trauma foi muito grande.

9 – Por que sua tribo foi expulsa da área?
Índio
– Propriedade privada. Mas tudo isso aqui era nosso. Hoje vivemos num mundo cheio de problemas, com guerras por dinheiro e poder, mutações genéticas causadas por contaminações químicas e nuclear... mas eles diziam que o índio é que era estúpido. Se matam por ouro e petróleo, por valores errados. Mas tu vê como isso é poderoso, a gente se curva e enquanto a gente curvar a coluna para pegar uma moeda no chão, eles vão comandar as pessoas.

10 – O que tu estás esperando desse show?
Índio
- É o nosso primeiro show, espero que de muitos. Este lugar é muito legal, no meio da natureza para trocar ideias e experiências. Fico imaginando se tivesse isso em 1964, nada daquilo teria acontecido. Também agradeço à Confederação Operária Brasileira (COB) por ter voltado a ativa e estar ajudando a organizar bandas punks e anarquistas para que voltem a tocar. No show eu espero poder passar mensagens para que sejam usadas aqui e no futuro.

11 – Morando um tempo aqui no RS, como tu tens percebido o movimento punk local?
Índio
– É forte, tanto que foi em Canoas que surgiu a ideia de voltar com uma banda mais antiga ainda que Condutores, que é a Abutres Digitais, de 1974. É um punk old school e é bem provável que volte.

12 – Lembro de algumas histórias engraçadas do Hino Mortal, como aquela em que tu arrancaste páginas da Bíblia durante o show...
Índio
- Ah, a gente levava cada surra (risos)! Éramos uma banda de protesto, com letras curtas e diretas, o bicho pegava mesmo... A ideia era fazer críticas de uma forma sarcástica. Quando aconteceu o caso da Bíblia, lembro que tocávamos numa faculdade de Direito em São Paulo. O nosso guitarrista apareceu com o livro. Então eu o abri, comecei a folhear algumas páginas e li "Corinthians e São Paulo" e disse que não torcia para nenhum deles, aí arranquei uma folha. Os punks fecharam um baseado com ela e começaram a fumar durante o show. O mais engraçado é que a polícia estava lá e começou a procurar o baseado, mas não conseguia achar porque os punks passavam com rapidez e o escondiam. Lembro que estávamos tocando “Pare a polícia” enquanto os policiais corriam atrás dos punks ao redor do palco. Teve uma outra vez que tomamos uma geral da polícia e um punk louco, que costumava tirar o forro dos bolsos e andava sem calção, foi o primeiro a ser revistado e o PM pegou no pau dele... (risos). Quando estávamos no camburão a caminho da delegacia, ele pediu para dar uma parada para cagar. Os policiais não acreditaram e ele cagou dentro da viatura mesmo e passou merda por tudo. Os PMs ficaram indignados e falaram que ele ia ter que limpar. Então ele pegou um pedaço de merda e foi cumprimentar o policial: “Ok, tudo bem”, disse estendendo a mão (mais risos).


Índio, "serenidade raivosa" e com razão...


O "velho punk" arrotando algumas verdades...


Condutores em ação



Antes dos Condutores botarem os punks para pogar já ao amanhecer, outras bandas passaram pelo palco, com destaque para Campbell Trio e Wall Ride. O show do Condutores, que era marcado para 4:50, só aconteceu pouco antes das 6, isso porque a banda argentina de hardcore Different topou tocar depois. Canela, baixo e vocal da Wall Ride, foi a voz dos descontentes com os atrasos provocados pela passagem de algumas vaidosas bandas de metal que estavam mais preocupadas com seus longos cabelos escorridos do que com o som e a galera sedenta por rock. “Galera, vamos tocar a última música porque o circo passou por aqui e demorou um pouco para se armar”. Com influências de Cólera, Ratos de Porão, Grinders, Black Fag entre outras bandas de punk e hardcore, a banda fez um show enérgico e rápido. Canela, que tem a companhia de Jara e Luiz, guitarra/vocal e bateria respectivamente, diz que a banda pretende gravar um CD o mais breve possível, o que deve ser facilitado pelo fato de ele ser proprietário do selo Overal, que já lançou 11 bandas do Brasil e Argentina – entre elas, Different. “Vamos tentar gravar em 2012”. “Mas o mundo vai acabar em 2012!”. “Vai acabar no resto do mundo, mas aqui porque o Brasil não tem estrutura. O Brasil só tem estrutura para receber o Rock in Rio sem rock”, brincou Canela.


Wall Ride



Segundo dia - 8/10
O cansaço já consumia o velho, mas ainda tinha mais. O segundo dia do festival, que iniciava às 18hs, teria bandas como Ação Direta e Olho Seco. Antes desses dois shows, merecem registro a apresentação da banda Out Of Reason e Conduta Destrutiva. A última tocou um punk de primeira, com direito a todo protesto e energia possível. Durante esse show, o Índio passou por mim e fiz a última pergunta/afirmação: “Viu como o movimento punk de verdade ainda existe?”. Índio assentiu com a cabeça e um sorriso de satisfação. A resistência estava ali.
A queda de luz atrapalhou um pouco os trabalhos e eu acabei não conseguindo ter uma conversa com o Fabião, do Olho Seco, e o Gepeto, da Ação Direta. Ok, eu admito que poderia fazer um esforço mas a minha energia já não ia comportar - jornalistas não são confiáveis, beibe! O show da Ação Direta foi forte e rápido devido aos atrasos, dessa vez provocados pela queda de energia – que voltou em meia fase e só pode iluminar o palco algum tempo depois. Os shows rolaram no escuro, iluminando as mentes sedentas que ainda perambulavam, cansadas e vivas, por lá.
“Amasse bem seu cérebro, abra bem, abra bem seus olhos”. E o recado furioso do Fabião foi ouvido sob a maior roda punk dos dois dias e a promessa de tocar no RS mais vezes. “É uma vergonha a gente não tocar aqui a trinta anos”, arrotou a voz forte do vocalista, emendando logo após “Que vergonha”. Uma homenagem bonita ao amigo Redson, falecido há duas semanas, também foi feita, sem guitarras distorcidas, mas com uma salva de palmas que mandou energias vitais para esse eterno grito de sanidade. “Forte e grande é você. Forte e grande são vocês!”.
A mente cansada de hoje, enquanto escrevo esse texto, agradece a organização do festival por essa oportunidade. Ah, não vou dizer que posso morrer agora, porque ela – que agora concorda que todo o punk é inocente – vai ficar brava comigo. Então ok, hasta la vista, amigos(as) e longa vida do verdadeiro punk!



Gepeto, da Ação Direta, promove um pogo violento



"Isto é Olho Seco, seco, seco, seco!!!!"

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Cobertura do Morrostock - dias punks!

Hola pueblo,

Atualizada rápida aqui com a programação dos dois primeiros dias do Morrostock 2011, dias com muito punk rock e outros rocks mais pesados e sem frescura. Vou fazer cobertura para o blog Sarna, o Musicômio e o zine Lovers Rock, em sua última edição. Um pouco de jornalismo gonzo em breve com lendas do punk, como a galera do Olho Seco e Ação Direta.


7/10 - sexta-feira – bardomorro
21:00 – Atrito (Campo Bom)
21:45 – Draco (Poa)
22:40 – Redoma (POA)
23:25 – Phornax (POA)
00:15 – Tierramystica (POA)
01:20 – Soulspell – Ópera Metal (SP)
02:25 – Campbell Trio (POA)
03:10 – Wall Ride (POA)
03:55 – Diferent (ARG)
04:50 – Condutores de Cadáver (SP)

8/10 - sábado – bardomorro
17:00 – 4 Acordes (Sapiranga)
17:45 – Inseto Social (SM)
18:30 – Stella Can (POA)
19:15 – Barulho Esurdecedor (POA)
20:00 – Chute no Rim (Alvorada)
21:45 – Audioterapia (Osório)
22:30 – The Efficients (Canoas)
23:15 – Out of Reason (Canoas)
00:00 – Conduta Destrutiva (POA)
00:45 – Pupilas Dilatadas (POA)
01:30 – Ação Direta (SP)
02:35 – Olho Seco (SP)
03:45 – Burn The Mankind (POA)
04:35 – PANIC (POA)


Detalhes da programação dos outros dias no: www.morrostock.blogspot.com





Saludos!


Diegonzo

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Menos uma voz

Fiquei com medo quando sentei aqui em frente à parafernalha tecnológica onde escrevo minhas matérias e, às vezes, quase raramente, meus honestos sentimentos. Fiquei com medo porque, abrindo uma das mídias sociais li "Cólera" e "Redson" nos principais assuntos abordados. Em situações normais, seria algum time de futebol, um cantor(a) que se apresentou no “Pop in Rio”, uma celebridade com desarranjo mental ou qualquer outro tema desses que contribuem sistematicamente para a alienação humana. Foi com muito receio cliquei no assunto Cólera.



A forte voz de Redson se calou, definitivamente, nesta quarta-feira (28) triste da primavera de setembro de 2011. A causa da morte é parada cardíaca, sem motivações detalhadas ( enquanto isso a causa dos nascimentos de corpos sem alma todos os dias é sempre conhecida ). O meu coração, igualmente, parou por um momento com a triste notícia. Lembrei do Redson vociferando contra um sistema moribundo, contra as desigualdades, contra a violência e em favor dos animais num dos melhores shows que tive oportunidade de assistir nos meus quase 30 anos de vida.
O cenário era o Garagem Hermética, em Porto Alegre/RS e eu, com meus então 19 anos, estava extasiado vendo a Voz se fazer, sem microfone, para um público de centenas de pessoas. Era uma espécie de cristo real, um anti-herói - heroicamente resistindo fora dos padrões - com um coração batendo fora do peito em compasso com a mente. Era energia pura, em estado bruto, com amor pelo ódio e pela raiva de não se poder amar plenamente vivendo neste mundo sem alma.
Redson se foi como um tiro certo – não de armas de fogo, mas de vida. Redson foi poguear ao lado de deus. Se foi um punk genuíno, mas ficaram as lembranças e os legados para quem conseguiu ouvir aquela Voz em seus apelos, suas súplicas, por liberdade e paz.


Pela Paz - Cólera
Tem violência em Bruxelas,
Tem violência em Moscou,
Tem violência em nova Iorque
E também no Brasil.
Têm vinganças religiosas,
Têm vinganças de raças,
Têm vinganças de governos
Tenho medo da guerra.
Mas quem se importa?
Mas quem se importa?
- Eu me importo, eu me importo
PELA PAZ, PELA PAZ
PELA PAZ EM TODO MUNDO!
Mais o ódio se espalha.
Mais aumenta a fome.
Mais as vidas são tiradas
De dentro dos homens.
São mais armas para o mundo.
São mais filmes violentos.
São crianças aprendendo
Matar ou morrer