Na associação brasileira das associações brasileiras de coisa nenhuma trabalhava Jack. É assim que ele gostava de designar o local onde definhava há quatro anos, o qual não vale dar propaganda gratuita neste texto. Os sonhos nutridos pela sua faculdade de jornalismo o deixaram assim, sarcástico, um pouco amargo e, raramente, honestamente alegre. Na maioria das vezes era cínico. Na verdade, relacionar essa personalidade, por vezes até rabugenta com as desilusões acerca do jornalismo, seria uma pretensão muito grande, especialmente por parte do jornalismo. A vida se encarregou, com todas as suas nuances cruéis, de fazê-lo assim. Mas nem tudo era tristeza, no fundo gostava de viver, embora soubesse que as coisas poderiam ser muito melhores com um pouco mais de boa vontade, sua e de todo mundo.
Não gostava muito de se relacionar, a não ser sexualmente. Assessor de imprensa de um bando de empresários corruptos associados. Parecia piada, escrever releases sobre as benesses do associativismo e do trabalho cooperado. Gostava do caos, e somente ele, na sua vida pessoal ou profissional - as quais tinha o cuidado de separar rigorosamente para não engolido, ou melhor, digerido, já que engolido já havia sido – pelo sistema. Não o sistema político. Não gostava de falar disso, se sentia um manipulador ou “panfletário”, como era acusado de ser nos tempos de militância. “Posso ser religioso ou político, nutrir ideologias que já nem acredito, apenas para testar o meu poder retórico”, dizia nas conversas de buteco com seus poucos amigos. Quando bêbado ou chapado de qualquer coisa ficava ainda mais sarcástico, mas o cinismo, milagrosa e repentinamente, desaparecia, fazendo-o bater o recorde e inimizades por hora. “Não preciso ser cínico fora do meu horário de trabalho”, justificava com orgulho. Por seus problemas relacionados à humanidade em geral, acabava se fechando, tornando-se uma espécie de autista por opção. Lia muito, assistia muitos filmes malditos tanto pela galera “pop” como pela galera “descolada e cult” - agora os hipsters, como virou moda chamar - do cinema. Gostava dos rótulos concedidos pelos seus amigos de ocasião. Era o rabugento, o do contra, o chato, o teimoso... alguns poucos chamavam isso de personalidade. A verdade é que pouco importava, desde que houvesse uísque e fumo suficientes para afogar as mágoas de suas epopeias solitárias madrugadas a fio.
Jack, cujo nome era Jackson – do qual evidentemente não gostava, como quase tudo que não era uma decisão pessoal e unilateral sua, também se sentia bem com o poder concedido pelo jornalismo. Embora sem reconhecimento, se divertia com os puxa-sacos de plantão e as garotas que queriam lhe dar, jurando que tinha algum dinheiro e prestígio. O fato de ser um rapaz bem apessoado não era de todo ruim quando a busca era por sexo, mas incomodava profundamente quando, raramente, se interessava por alguém. Acabava que não acreditava que alguém pudesse gostar dele sem aquela carcaça que a sociedade, por capricho e pela necessidade de criar um padrão de beleza, achava agradável. Lembrava sempre o melhor conto de todos os tempos – talvez por ser a sua desvirginização no mundo literário mais sangrento, que era “A mulher mais linda da cidade”, do Charles Bukowski.
Na cidade interiorana onde morava desde que se formou e brigou com os pais, era conhecido como um profissional competente, o que lhe provocava sentimentos contraditórios. Ao mesmo tempo precisava daquilo para ter o que sua natureza selvagem mais desejava e por outro lado se sentia, cada vez mais, afastado dela. Tentou terapia. Não deu. A única coisa que o fazia menos angustiado eram as drogas legalizadas ou não pela poderosa indústria farmacêutica. Por isso, todos os dias orava para o São Rivotril, ansiolíticos derivados e anfetaminas.
Em um belo domingo de outono, algo o despertou de repente. Algo lhe apertava o peito. Como não era a primeira vez, já conhecia os procedimentos. Tomou duas generosas doses de uísque e saiu. Eram 11 horas da manhã. Na praça não havia muitas pessoas. Nem crianças. Simpatizava com os pequenos, o que deixava muitas dúvidas quanto à sua verdadeira repulsa pela humanidade. “Crianças são como anjos puros, não contaminados pela mediocridade da massa”, é o que dizia, enquanto jogava panfleto ao vento. Ficava, portanto, genuinamente indignado, quando via alguma criança sofrendo. A vontade era de matar, embora não fosse capaz de matar uma mosca. “Mas qual a diferença entre uma mosca e um ser humano? Não sejamos tão corporativistas!”. Sentou no gramado e acendeu o primeiro cigarro do dia. Era sempre o melhor. No outro lado da praça, uma garota que aparentava seus 18 anos lhe chamou atenção. Era linda, de uma beleza diferente dos padrões impostos. Alguns poucos minutos depois, chegou um garoto malhado pelo padrão do esforço físico e não mental, que mais parecia um rinoceronte, e sentou do lado dela. Perdeu a atração. “Ora, ora, se esse tipo lhe apetece, não me serve”, pensou num misto de falso orgulho e a real covardia que lhe acompanhava desde tenros tempos quando sofria o que a sociedade atual chama de “bullying”. Acendeu o segundo cigarro e levantou meio desajeitado. A ressaca fazia efeito. A pressão baixou e escureceu. Como se sabe, a atividade cerebral, mesmo no desmaio leve, permanece. No momento foi para outro mundo paralelo. Numa praia deserta, a garota apareceu. Ele, como um editor da sua própria vida, tentou apagar rapidamente.... piegas demais! Não conseguiu. Ela chegou perto de Jack e sorriu um riso que iluminou o sol. “O que você quer?” A garota permaneceu com a mesma expressão, como se dissesse que “se você não sabe, como saberei?” Ele entendeu e até esboçou um sorriso tímido. O mar se agitou de repente e ele acordou. Não sabe quanto durou isso tudo, parecia eterno, mas a racionalidade dos acordados logo voltou a sua mente. Olhou em volta. A garota ainda estava lá com o rinoceronte. Levantou, dessa vez com mais cuidado, e seguiu o caminho. Quatro passos depois percebeu sua camiseta queimada do cigarro que, provavelmente, padeceu ali durante o desmaio até apagar. “Eu poderia ter incendiado”, sorriu quando imaginou a patética cena. Idiotas podem morrer de toda forma, qualquer tropeço no cotidiano e já era. A fragilidade da vida era espantosa, embora adotasse uma postura totalmente blasé quanto a isso. O uísque e fumo em excesso e os eventuais baseados de haxixe que o digam.
Comeu um resto de massa que havia na geladeira, abriu a última cerveja e deitou um pouco. Estava quase revigorado, quase vivo. Domingo sempre era um dia complicado. Sofria por antecipação com o início de mais uma semana de entediante trabalho. Para dormir, ansiolíticos e álcool. “Jackson, um dia você não vai mais acordar”, disse o médico em uma oportunidade. Tudo bem, nem era de todo mal. Talvez quem mais sofresse fosse o bar perto de sua casa, onde ia diariamente tomar generosas doses de uísque vagabundo e conversar com os outros bêbados desiludidos. No sofá surrado do tempo, dormiu. Um cochilo leve, mas o suficiente para trazer a garota de volta. Dessa vez, um contato mais próximo. Estava semi-nua, somente com uma cinta-liga vermelha e segurando uma garrafa de uísque. Finalmente, um sonho bom, nada piegas, mas que, provavelmente, acabará em um polução no pobre sofá. E foi isso. Não houve sexo, apenas olhares, mas foi como se houvesse. Acordou ainda excitado o bastante, mas preocupado com a sujeira que havia feito. Foi até a cozinha, olhou o pano, o balde e pegou o cigarro. Fumar um cigarro e tomar mais um uísque antes da labuta, nada mal. Foi o que fez. Depois, enquanto limpava o sofá – “porra, eu pareço um elefante gozando. Nunca vi elefantes gozando, mas deve ser assim, enfim” -, pensou na garota. Precisava dela, não somente para sexo, mas por uma questão de sobrevivência. O simples fato de pensar nela o alegrava de uma maneira inexplicável até para o narrador dessa estória.
Ligou para uma “amiga”, dessas nascidas para serem saciadas e saciar desejos instantâneos. “Jack, só preciso me desvencilhar do Rui – era o seu marido – e já vou aí”. Provavelmente inventaria algum passeio com as amigas, como de praxe. Ah, o amor. Não entendia como se podia casar e viver desse jeito. Não era, necessariamente, um conservador, mas não entendia uma relação que era para ser honesta vivendo de mentiras convenientes. Alguns chamavam isso de moralismo. Ela dizia que Rui desconfiava, mas não tomava nenhuma atitude, nunca nem ao menos a perguntou sobre isso. É bem possível que fazia o mesmo, justificando com jogos de futebol semanais com os amigos. Eis a conveniência que deixa o mundo ainda mais sujo na ótica de Jack. Pouco menos de uma hora depois, tocou o interfone. Era Joana. Estava gostosa, com uma mini-saia verde e a barriga, nem malhada demais nem gorda – ideal, à mostra. Serviu uísque para os dois. Ela gostava de misturar com água, já sabia. As mulheres, geralmente, para justificar o sexo, precisavam beber. Se o álcool não fosse o suficiente para afogar a culpa, se fingiam de bêbadas e ficava tudo certo. Ficaram conversando sobre amenidades por um tempo. Joana era publicitária e tinha ideias horríveis, que geralmente rendiam algumas discussões, por vezes ásperas. Mas, quando esses assuntos polêmicos se avistavam, Jack partia para cima e iniciava os trabalhos. Não dava para conversar, era a parte mais dolorosa do relacionamento dos dois. “Ah, esse Rui, além de corno, deve ser muito idiota para conseguir estar casado com essa debilitada mental por tanto tempo”. Rui e Joana formavam o típico casalzinho alternativo perfeito. Ele brincava de cineasta e produzia uns curtas terríveis. Lembro de um filme dele, que Joana me fez olhar. Falava sobre uma mulher de idade que fazia programas para sustentar a faculdade do filho. Um dia o filho foi no prostíbulo onde ela trabalhava e a pegou trepando com um colega. Matou o colega e a mãe. Assim, um clichê, meio atarantinado, metido a besta e com pitadas cults e engajadas que soavam um tanto quanto desesperadas e fora de contexto. “Sempre odiei Tarantino, mas sempre conseguem piorar. Aliás, acho engraçado, como existem alguns artistas talentosos com fãs tão imbecis”. Sabia que se existe alguma coisa no mundo que não tem limites é a imbecilidade. Seja ela de que cor ideológica for. Joana era insaciável, gostava de trepar de tudo quanto é jeito e gostava de chupar quando estivesse quase gozando, para tomar o esperma ainda quente. “Ok, agora você pega o táxi, eu pago a corrida. Vai para a casa? Então são os mesmos 15 reais, né?”. Já sabia o valor, era a puta mais barata da praça e nem era de todo mau, só não podia conversar, mas isso nem era lá o maior hobby de Jack. Ele pagou e ela se foi. Sempre torcia para a noite passar depressa. Se tem que iniciar tudo de novo, que inicie logo. A agonia, que a primeira vista pode ser exagerada, era justificada pelo medo do tédio e pelo fato de que, mesmo inconscientemente, Jack estava se acostumando a ele. Tomou sua boleta e adormeceu. Dessa vez, o álcool e o remédio o fizeram dormir sem sonhos. Achava tão triste não sonhar, mas só haviam dois caminhos a escolher sempre: ficar acordado ou dormir e, em ambos, não poderia sonhar.
Na manhã seguinte fez tudo como sempre. Escovando os dentes quase vomitou. Passou a mão no cabelo, o que não seria uma forma muito usual de pentear, mas ele não era nada usual. Vestiu a roupa meio surrada, pois não precisaria se preocupar com a sua imagem hoje, já que não havia nenhum evento externo, onde a orientação era se vestir como um milionário, mesmo recebendo como um mendigo. Escreveu dois releases meia-boca e a manhã passou arrastada a base de cafeína e muitos decibéis nos seus fones de ouvido. O repertório de Bob Dylan, Johnny Cash, Willie Nelson e, eventualmente, um punk e hardcore para evitar fechar os olhos e descarregar completamente a bateria. O tédio funcionava como uma criptonita para um super-homem. Sabia-se subjulgado, mas precisava daquilo. A tarde também passou voando. Foi informado que no outro dia teria de ir num evento importante, que reuniria importantes lideranças empresariais e dos sindicatos patronais. Teria de ir com seu terno, que custou quase metade do seu salário de um mês. Já sabia o que escrever, antes de ir. Para tornar tudo um pouco mais divertido, pensou, certa vez, em fazer uma página na internet, anonimamente, onde escreveria suas reais impressões sobre os eventos. Aqueles sorrisos amarelos, aquelas conveniências, os tapinhas nas costas, um jogo de cartas bem marcadas, secularmente marcadas e imaculadas pela cultura do egocentrismo. Mas não daria certo, já que seria muita coincidência o anônimo escrever, sempre, o contraponto das suas pautas designadas. Morreu a ideia, como morreu muita coisa, e muita coisa ainda viria a morrer. A morte era a única verdade, não a física, mas a espiritual. Sentia como se o mundo estivesse expulsando sua alma do corpo, matando por inanição o espírito inquieto e rebelde que ainda se fazia presente ali. Às vezes se sentia como um leão enjaulado em uma gaiola, e se sentia revigorado pela percepção. Também não seria muito legal largar tudo e viver como hippie, sonhando sonhos que jamais terão tempo para serem realizados. A única guerra Justa que o homem conheceu! O alimento da alma eram os finais de semana, regados a sexo, drogas e rock´n roll, aquele clichê que salva e, ao mesmo tempo, o deixava perto da morte. O limite, justamente esse, era seu amigo. O grande problema do limite é que, por ser tênue, era uma linha imaginária que podia ser ultrapassada facilmente e aí já era. Seu corpo seria comido pelos mesmos vermes que comeriam os covardes, os defensores do status quo e toda a corja de moralistas bestializados que habitavam o planeta. Tudo, igualmente, apodrece embaixo da terra. “Sou um bicho feito de ódio pela falta de amor”, dizia. Durante o trabalho, sua alma ia esvaziando. Tinha medo que um dia ela esvaziasse totalmente e não houvesse mais como a recuperar nos tempos de liberdade. Na sua última coma alcoólica, quando estava bebendo sozinho em casa e acabou tomando uma garrafa e meia de uísque sem se alimentar, quando desperto, o médico sentenciou: “Jackson, ou você para com esses excessos ou vai morrer. Não existem mais opções. É a terceira vez que você aparece aqui semi-morto”. Apesar de saber que, a ideia corrente na maioria dos casos, é que agir como um morto é ser saudável para aqueles homens de branco, se chocou. Ah, odiava que lhe chamassem de Jackson e, geralmente, quem o chamava assim também não simpatizava com ele. Pura coincidência. Depois desse tempo, que foi feio, com alucinações, pânico de tudo e esquizofrenias, ele resolveu parar de beber, ao menos nos dias de semana. Durou pouco tempo e já estava entregue. No fundo, por mais que quisesse viver, a sua natureza era a autodestruição. O mundo já não o suportava, e isso era recíproco. Tinha surtos da chamada lucidez e se tranquilizava - mas somente até o próximo pensamento. O pensar era como um câncer que ia destruindo Jack. E se uma lobotomia o salvasse? Nada disso. Era um jovem competente e fazia tudo, rigorosamente, como o sistema de vida lhe pedia. No fundo, um conservador, um moralista rebelde que seguia a sua cartilha.
Recém segunda-feira. Pelo menos as noites costumavam serem mais tranquilas nas segundas. Tomou o seu uísque controladamente, já não passava das quatro doses generosas diariamente, e resolveu por sonhar. “Essa noite, eu vou sonhar, nem que arrisque não ter sono. É um risco e os corajosos gostam de desafios”. Esse foi o maior desafio de Jack desde que era punk e explodiu um molotov na sede de um partido neofascista. O relógio era implacável, 2, 3, 4 da manhã e eis que ele tem um breve cochilo. Era o mesmo mar revoltoso da primeira vez que havia visto a garota da praça, mas dessa vez ela não estava lá. Foi em direção às águas como que para tentar o suicídio mais uma vez, sabia ser um sonho afinal... mas, sabia também, que na projeção não poderia morrer, sob o risco de não voltar mais, como ouvira nas histórias (ou estórias) dos velhos. Com água na altura do peito, o mar, repentinamente, se acalmou. Era como se a natureza apenas o quisesse despertar uma coragem, uma segurança há muito adormecida. Ficou um tempo ali, nadou e até sorriu para o Nada.
Acordou, surpreendentemente, feliz. Escovou os dentes sem a ânsia habitual, passou a mão no cabelo e passou a se vestir. Ternos são complicados. A gravata ficava sempre ali, com o nó que dera na primeira vez que usou. Não sabia fazê-lo novamente. Partiu para o trabalho. Cumprimentou seus colegas, deu tapinhas nas costas dos empresários, distribuiu alguns sorrisos em resposta e sentou num lugar estratégico para fazer boas fotos que maquiassem e deixassem bonitos aqueles homens que não passavam de porcos vistos pelos seus olhos, com raríssimas exceções. Apenas um dos palestrantes do dia lhe nutria alguma simpatia. Era um velho, um dos fundadores da associação em que trabalhava, um idealista que ainda acreditava que estava fazendo um bem. Na frente de João Carlos, o velho, todos eram só elogios e sorrisos, mas em outros círculos ele não passava de “um velho gagá que estava atrapalhando o pragmatismo dos negócios”. Era o último palestrante do dia, que seria longo visto todo o lixo que teria de ouvir antes. Menos mal que já conhecia os discursos de cór, motivo pelo qual ainda estava empregado, já que no mercado trabalhavam pela metade do valor que ele recebia. Prostituir o cérebro é uma arte para poucos, mas mesmo assim muitos tentavam. O mercado estava saturado de putas baratas, mas sem nenhuma habilidade. Quando deviam rebolar para o gozo do cliente, pecavam. Já estava quase pegando no sono quando, do outro lado da sala, ele avistou uma garota loira, que lembrava aquela da praça. Não tinha certeza. Estava “bem” arrumada, com um desses ternos femininos que fuzilam qualquer traço de feminilidade. Eis o feminismo moderno com todo o blá blá blá da independência financeira. As mulheres querem parecer homens para conquistar o respeito do gênero... Como artifício para chegar mais perto dela, Jack pegou a câmera e foi se posicionar mais a frente. Atravessou a sala e parou do lado. Tirou uma ou duas fotos aleatórias, mal focadas, nervosas demais... Era ela. Jack, apesar de saber-se atraente para alguns tipos de mulheres – geralmente as menos interessantes -, ficava tímido nessas situações. Lembra sempre de quando era mais um pré-adolescente espinhento que nenhuma garota queria dançar ou, ao menos, chegar perto. Sua personalidade se desenvolveu com a rejeição, o que não foi de todo o mal, já que criou uma proteção natural contra pessoas inconvenientes, além de o ter levado ao mundo da contracultura. No início foi complicado, queria fazer parte do mundo dos descolados, dos populares, mas depois viu que não tinha jeito e se afastou. Foi doloroso. Perdeu a virgindade com um aspirador de pó e só foi beijar a primeira garota por volta dos 15 anos, quando seus colegas, ao menos nos papos de colégio, já tinham comido até as professoras mais gostosas. Logo percebeu que não fazia parte disso tudo, desse mundo meio morto e iludido, e se aproximou das ideias mais rebeldes. Conseguiu tudo nesse meio, drogas, garotas e rock ´n roll, de forma que não precisava de nada mais para encarar a vida de frente, sob a sua ótica própria. Passou a ver o mundo mais “pop” com asco e sem muita habilidade ou paciência. Sofreu muito por isso até que começou a aprender a jogar. Jogar não é uma atitude louvável, mas era a forma de não se tornar um serial killer. Virou uma espécie de bicampeão, ganhando a vida nos dois mundos. Os conflitos, evidentemente, eram inevitáveis. Aí entravam os remédios, as terapias, os excessos com álcool e drogas e as suas experiências mais malucas também. Tinha, finalmente, vivido mil anos em 10, o que deixou sequelas severas no seu corpo, especialmente no fígado. Coragem, Jack. O mar ficou nervoso novamente, mas quando entrar, vai se acalmar e acolher seu corpo com suavidade. Mas a realidade implacável é que até a sua abordagem tem que ser tosca. “Interessante a palestra, né?”. “Eu não estava prestando atenção, o que ele disse sobre a evolução do mercado de fitas isolantes?. “Ah, errr... não peguei também”. Ela riu, aquele mesmo riso de canto de boca, que iluminou o sol e agora iluminava aquela sala cheia de porcos e seus criadores. Ela dizia algo que ele não conseguiu ouvir, tudo parou, somente a boca da garota se movimentava. Se atravessando num assunto que nem sabia qual era, ele perguntou o que ela fazia ali. “Eu sou relações públicas do Arnaldo Gomes Júnior, que fará a próxima apresentação”. “Sobre o que ele vai falar?”, perguntou tentando fingir interesse. Diga-se de passagem, era péssimo nessa arte. “Ele vai dar o case da empresa, sobre como conseguiu inovar nos produtos e aplicar o conceito de sustentabilidade”. “Ah, interessante. O mundo precisa disso, né? Aliar a atividade empresarial com as questões ambientais”. Nem ele acreditou em tamanho cinismo. O meio ambiente nunca esteve na pauta da indústria, a não ser agora, quando a precariedade começa a preocupar o futuro dos negócios para seus filhos, netos e demais descendentes. A cultura alimentada pelo capitalismo nunca será compatível com a preservação do planeta, isso era um fato. Tanto que todos os empresários que falavam em sustentabilidade, falam em diminuir os impactos ambientais dos seus negócios, mas nunca acabar com eles. O ser humano era um câncer maligno tratado com remédios fortes que dava uma sobrevida ao planeta. Mas, no fim, era uma questão de tempo para tudo explodir. A única ideia que parecia plausível era começar tudo do zero, saindo desse círculo vicioso de hedonismo torto e morte. Ela ficou em silêncio por um minuto que pareceu eterno, até que Jack disparou gaguejando: “Vamos tomar um café enquanto não começa a palestra do Arnaldo?”. Ela aceitou e eles saíram do auditório para o hall. Ela foi na frente. Não tinha reparado como era gostosa. Uma bunda não muito grande, mas perfeita na forma. Usava aquelas calças com tecido leve. A calcinha, marcada, fazia um V perfeito até o centro daquelas duas perfeitas nádegas. Ficou com um tesão maluco, mas precisou se controlar para que ela não notasse aquele desconcerto. Não podia estragar tudo o que estava dando certo. Ela chegou na térmica e o serviu café. Tomava sem açúcar, assim como ele. Papo de elevador não merece ter uma linha aqui. Ambos encarnando personagens, de forma a conhecer o terreno, com alguma poucas jogadas mais arrojadas. No final do papo, quando já se dirigiam para o auditório, ela comentou que “finalmente teria um show de rock legal na cidade”. Jack não sabia do que se tratava, então perguntou. “É a banda dos Micos raivosos, de São Paulo. Eles tocam aqui no final de semana”. “Não conheço muito o som, mas já ouvi falar bem”, mentiu. “Então, você não tá afim de ir? Os ingressos devem se esgotar entre hoje ou amanhã, já que o lugar é pequeno. O preço também é bom para uma banda de fora do Estado, 20 reais”. “Onde eu compro?”. Ela se ofereceu para fazê-lo, desde que se encontrassem amanhã, na praça. Na praça? É, aquela mesma praça, a única da cidade, onde crianças disputavam espaço com os maconheiros. “O seu namorado vai?”, disparou para ver o que acontecia. Ela disse, vermelha. “De onde tu tirou que tenho namorado? Sou muito mais chata do que pareço dentro desse terno”, brincou e sorriu novamente aquele mesmo riso. Combinaram de se encontrar depois do expediente no dia seguinte e foram para o auditório. Quando se separaram, Jack percebeu que não tinha nem perguntado o nome da garota. Mera trivialidade, na verdade, mas que era importante nas relações sociais. Ela nem ao menos havia pego o dinheiro com ele para pagar o ingresso. Pareceu muito interessada, por isso, pensou ele. As coisas estavam andando num rumo positivo. Não conseguiu prestar atenção em mais nada. Nem tirou fotos. A palestra acabou, era a última. E ele só tinha escrito no seu bloco: “palestra: Arnaldo Jr. Diretor da Isolantes Arnaldo. Isolantes sustentáveis”. Putaquepariu! Como faria uma matéria com isso? Tratou de não pensar, pensar no calor do terno e na sua vontade de tirar logo aquela corda em forma de gravata do pescoço. Pegou o carro e partiu. Não a viu mais nesse dia.
Chegou em casa e acendeu um cigarro enquanto servia uísque. “Hoje vou chutar o balde, fumar um baseado e tomar muito mais uísque”, disse para si mesmo. Estava estressado, nervoso... pensava na garota. Fechou o seu baseado e tentou viajar no cosmos visto da sua janela. Mas ela voltava, invadia seu espaço sem a menor cerimônia com aquele sorriso. Começou a mexer no pau por baixo das calças e logo já estava se masturbando furiosamente com aquela lembrança linda da bunda da garota. Até punheta com essa paixão é melhor do que o sexo sem tesão que já fizera algumas vezes e que era uma violência sem precedentes. Gozou logo e foi limpar. Continuou no uísque até adormecer. Acordou as 4 da manhã com larica e foi procurar algo na geladeira para comer. Tinha uma fatia de pão, margarina e uma fatia de queijo. Se não fosse aquilo teria que fazer alguma coisa e, a essa hora, preferiria a fome. Comeu e foi deitar novamente. Mal fechou os olhos e já era hora de abrir novamente.
Quarta-feira. Seguiu o mesmo ritual de forma surpreendentemente animada. Chegando no trabalho, ligou o computador e lembrou que não tinha nada anotado para a matéria. “Jackson, preciso desse material no site o quanto antes“, disse o chefe dele, um velho jornalista que, provavelmente, e diferentemente de Jack, jamais deve ter tido algum idealismo a não ser o seu umbigo nem quando entrou na faculdade de jornalismo. Achou que ia ganhar dinheiro e se embrenhou com aplicação abnegada ao trabalho. Logo, puxando o saco das pessoas certas, subiu de posição e era seu chefe hoje. Não chegava a ser autoritário, mas era “caxias” demais. Tentou escrever alguma coisa, mas, além de não ter nada para escrever, seu pensamento era disperso. Pensava no final do expediente, no que diria à ela. Fez um texto horroroso, buscou informações sobre a empresa na internet e pronto. Nunca, profissionalmente, lhe exigiram mais do que ele próprio. Um cão bem domesticado, dava para se dizer. Seu chefe olhou por cima e mandou publicar. “Está ótimo”! Tinha alguns problemas com autoridade, esse negócio de mandar e ser mandado não era com ele, embora até hoje só tivesse sido mandado. Se imaginava como chefe e já via que não daria certo. Certa vez o Roberto Freire, o psicanalista anarquista, criador da somaterapia, e não o boçal político, disse que o mundo só poderá ser anarquista quando todas as pessoas forem anarquistas. Fazia sua parte e sem esforço. Era intrínseco. Não dava valor às coisas materiais, com exceção do uísque, da maconha e do fumo. Esquecia coisas que para ele eram irrelevantes, mas que para a maioria das pessoas era essencial. Não fazia parte e, como já disse o narrador, não fazia a mínima questão de fazer. Regados a uísque, os dias iam passando sem muito sentido. A única meta era o salário no final do mês para abastecer o corpo, já que a alma era cada dia mais escanteada pelos torpedos de sutilezas do trabalho, dos falsos amigos e todo o tédio decorrente dessas relações humanas. Mas, era inegável, que sua alma era inflada algumas vezes com a lembrança da garota que nem tinha algum registro oficial na mente dele, a não ser o sorriso e a possibilidade do novo encontro. Pouco importa, nenhum nome, nenhuma carta, nenhuma foto, mas no final das contas, se mantém algo vivo. A vida, nada mais é, do que memória e consciência.
O relógio mal bateu às 18 horas e já estava na rua. Fazia um pouco de frio, que ficava mais intenso com a garoa que começava a cair. O dia feio contrastava com a felicidade de Jack. Mas era uma felicidade nervosa. Tinha vontade de parar em cada buteco que passava, até que chegou na praça. A garota não estava lá ainda. Algumas crianças de rua brincavam animadamente nos balanços, se empurravam na areia. Ficava pensando em como as crianças ricas, apertadas nos apartamentos, sob as grades da proteção, deviam invejar esses “vira-latas” que, livres, faziam o que bem entediam. O mundo era perigoso, se sabia, mas viver nunca foi uma arte fácil. Certo que o mais covarde era se esconder. Avistou a garota. Vinha linda, apesar de estar com muita roupa, exagerada... “Oi....”, ficou vermelho por não saber o nome dela, que ela completou: “Mônica”. “Ok, oi Mônica, conseguiu comprar os ingressos?”. “Também não sei seu nome”, disse sorrindo de um jeito tímido fazendo que não havia escutado a pergunta. “Jack, meu nome é Jackson, mas....”. Ela não o deixou completar e o entregou o ingresso. Sentia uma frieza no ar, um controle exagerado, como se fossem acionar uma bomba atômica a qualquer momento. Lhe entregou o dinheiro e começaram com o velho papo de elevador, até que tiveram a excelente ideia e ir tomar uma cerveja. Mônica comentou que não gostava do seu trabalho logo depois da segunda cerveja. Se media o nível de ódio através da resistência. Ela quase não resistiu ao álcool, sinal de que realmente odiava o seu trabalho. Não era fraca, pelo contrário, como viria a perceber. “Também não gosto do que faço. Quando comecei achava que poderia mudar alguma coisa, mas percebi logo que as coisas não são assim. Se trabalha pela ideia dos outros, se vende a ideia dos outros, nunca a sua, a não ser quando se tem uma muito bem aceita pelo status quo do patrão, o que não é meu caso. É uma prostituição intelectual”. Parou repentinamente de falar com medo de assustar a garota. Mas ela continuou o assunto. “Pois é, eu também não gosto disso, mas preciso trabalhar para pagar a minha faculdade”. Ela estava no segundo semestre da faculdade de Relações Públicas. “É públicas, não púbicas”, brincava, ironizando a condição de algumas coleguinhas e concedendo, de brinde para o universo, aquele sorriso. Ela tinha 20 anos e morava com os pais. Não era tão rebelde quanto ele com essa idade, mas tinha muitos indícios de não adaptação, o que agradou Jack logo de cara. Na quinta cerveja, resolveram pela saideira. Ela tinha horário para estar em casa. Já estava um pouco alterada. Se fosse qualquer outra garota, era o momento de atacar, mas não era qualquer garota. Foi praticamente santificada aquela noite, por razões além de qualquer explicação racional. Nada é muito explicável, quando se trata de sentimentos, então... e ele tinha isso muito claro. Pelos seus preconceitos, sua cartilha que lhe foi moldando com o tempo, as garotas pelas quais se apaixonava verdadeiramente não poderiam dar na mesma noite. Mais uma dose de moralismo com uísque. Ficaram conversando mais um pouco, trocaram telefones e se despediram. “Até sábado, Jack”, disse. Não foi nem um beijo no rosto. Aquele clima de guerra nuclear, que estava sendo afogado nas cervejas, se fez novamente. Ele não forçou. “Até, Mônica”. Deixou ela se virar primeiro. Muita roupa! Foi para a casa, mas, antes de chegar, parou no buteco vizinho para tomar mais uma cerveja e conversar com os bêbados. Estava leve, sociável até. “Eai, Jack, que cara boba é essa? Vai tomar uísque?”. O dono do bar era um sujeito bacana, desses que bebiam o estoque e apanhavam da mulher. Ela era uma velha gorda, que tinha uma verruga enorme na ponta do nariz. Parecia daquelas bruxas do Walt Disney e todos os seus clichês. O comportamento também era semelhante, como, às vezes, João confidenciava. Apanhava e, como um homem de verdade, não fazia nada além de tentar segurar as mãos descontroladas da mulher. Os hematomas não o impediam de estar quase sempre sorrindo e, sistematicamente, bêbado. Era, como os juízes penitentes mais moralistas julgavam, um perdedor. Mas nem fazia questão de ser diferente. Jack admirava isso, pois era um também. A vida, da forma que ia, dava a vitória para os mais fracos, os mais boçais e idiotas que conseguiam prosperar de alguma forma com seus carros, suas ideologias e seus empregos conquistados com muito suor e leite das tetas. Ele mesmo atendia no bar que mantinha há mais de três décadas. Coisa de cidade do interior. Os mais velhos se conheciam e Jack foi adotado, como um filhote bebum perdido, como de fato era. “Vou tomar uma cerveja, doutor. Me dá a mais gelada que você tiver aí”. Foi atendido. Conversou um pouco. No bar também estava o Pedrão, um bêbado que foi expulso de casa por motivos que nunca ficaram muito claros. Para sacaneá-lo, dizíamos que era porque o azulzinho já não fazia mais efeito, mas provavelmente era pelo abuso do álcool. As pessoas nunca entendiam os desistentes, nunca entendiam que o álcool em excesso era um pedido de ajuda para não continuar com aquele suicídio desesperado. Ele estava, como se diz, empedrado. Olhar fixo no nada, que batia na parede. Mas era nítido que se podia ver muito além daquela parede suja e cheia de fotos dos encontros anuais dos amigos de copo. Ficou um pouco lá e foi embora. Logo adormeceu, nem precisou dos remédios. O amor é uma droga poderosa, sim.
Os dias passaram de forma normal, com muito tédio, café e uísque. O rock n´ roll, como sempre disse o nosso anti-herói, era uma das suas amantes que acompanhariam pelo resto da vida. Era uma segurança que, misturada com o álcool, o transformava num super-homem de dar inveja a Nietzsche. Embora tivesse a consciência de que a menina deveria ser legal e tudo mais, tinha a certeza de que, se tudo desse errado, a sua predestinação alcoólica e roqueira o salvaria. O único deus que aprendeu a amar depois de toda a subjulgação do mundo.
Xeque-mate
Chegou o tão esperado sábado. Na sexta-feira, como precaução para estar vivo no dia seguinte, não bebeu um gole de uísque e foi dormir com suas boletas. “Mamãe ficaria orgulhosa”, pensava. Queria dormir o dia todo e só acordar na hora de sair, pois quanto antes levantasse da cama, mais cedo tomaria o primeiro uísque. É evidente, não sabia lidar muito bem com essas situações, mas sabia que não poderia ficar muito bêbado antes do show, marcado para as longíquas 23 horas. Tarefa árdua, ainda mais quando se regride a uma idade de 10 anos quando o assunto é autocontrole.
A casa antiga onde ocorreria o show era cheia de história. Grandes contestações tinham nascido ali naquele caos sonoro e de ideias libertárias. Nas paredes bandas como Cólera, Olho Seco, Ratos de Porão, gente com sangue nas veias como o Raulzito - que tocou num dia em que estava tão bêbado que vomitou num desses fãs de tudo e de nada. O atendente do bar, que estava naquele dia de 1983, disse que o cara estava pedindo parar um cover do Jerry Adriani. Mas o preço já não comportava muito dessa atitude rock n´ roll e hoje tinha quase um segurança para cada pessoa. Os malucos tinham medo ultimamente, ao mesmo tempo em que se proliferavam os ratos bem alimentados da cultura embalada pela indústria de cultura, de culpa, do medo e do limite. O fato foi o suficiente para que, em pouco mais de cinco minutos de atraso de Mônica, Jack estivesse se sentindo um neurônio fora do grande bacanal de bestialização atual. Já era o terceiro uísque, muito bem pago ao bar, e nada era possível de o fazer mais confortável na bancada.
Uma cabeça loira lá fora, dava para espiar pelo vão da porta, poderia ser ela. Nada, era uma loira gostosa, mas que tinha um buraco na cabeça, onde havia uma sonda imaginária, produto da cabeça de Jack. Não, não era o uísque, que nem tinha lhe proporcionado aquela alegria sem medo de ressacas de toda espécie, era o maldito cérebro crítico, herança de algum Gandhi,Marx, Bakunin, Zapata ou Che que esteve perdido na grande floresta tupiniquim nos idos de 1500. Mas que tinha belas ancas, tinha, inclusive aquele “porta dedo”, um traço anatômico presente de um deus generoso que se precise acreditar. Passou zunindo e foi sentar em uma mesa com um desses debilóides pequenos burgueses anencéfalos que vivem às custas dos sofredores pais, mas que exalavam arrogância pelos poros. Todos os músculos eram fortes, com exceção do cérebro, o tipo mais amado pelas nossas garotas perdidas.
Já estava no quinto uísque quando apareceu a Mônica. Ela entrou com uma cara estranha quando começou a tocar uma versão maluca da nona sinfonia de Beethoven, um rock pesado e que dava a impressão sair das caixas na agradável forma de um murro bem dado no cérebro. “Jack, está há muito tempo aqui?” “Há mais de uma hora com certeza, mas eu entendo as mulheres”, mentiu, como sempre. “Desculpa, aconteceram uns problemas”. Ela contou que havia brigado com seu cunhado, que tinha tentado pegar ela a força quando sua irmã saiu para ir ao mercado aproveitar as promoções de fraldas. “Esperou eu sair do banho e ir para o meu quarto. Estava lá embaixo da cama, como num filme de terror. Saiu e trancou a porta atrás de mim. Já estava sem toalha e lembro de ele ter me mostrado uma faca na cintura antes de sussurrar que desde quando eu era muito pequena era tarado por mim e que agora ia descontar todos os anos de controle que ‘fritavam’ a sua mente e coração todos os dias. Tentei fugir e ele me acertou. Desmaiei e acordei com a minha irmã no quarto tentando me acordar. Ela perguntava o que tinha acontecido e eu, envergonhada, travei. Ela me ajudou, me entregou uma água com açúcar achando que era porre. Vomitei o que não tinha para vomitar e comecei a chorar. Nesse meio tempo vi o meu cunhado Carlos na porta, fazendo sinal de que se contasse mataria nós duas naquele momento. Disse que não era nada e vim para cá. Não sei o que faço”
A história era aterradora. Jack perguntou se ela tinha algum sinal de estupro e ela começou a chorar com mais força. Virou as costas e saiu correndo. Foi atrás e esbarrou num armário humano, que tentou brigar. “Ahh, fodam-se seus problemas forjados, zumbi!”. O cara tentou lhe acertar um soco, mas só encontrou o ar. Escutou algumas risadas. Nesse tempo perdido com o mundo, Jack a perdeu de vista. Quando chegou na rua, olhou para os dois lados e nada. Saiu caminhando pela quadra e, logo na primeira esquina, a avistou na calçada. “Fale o que aconteceu, quero matar esse cara. Fale o que ele fez e onde eu o acho”. Mônica não conseguia falar, eram só soluços e lágrimas.
Quando levantou a cabeça, Jack viu um rapaz vindo na direção deles. O homem, que tinha um sorriso sarcástico no rosto talhado por uma cicatriz que vinha de baixo do olho esquerdo até o queixo, perguntou: “O que você está fazendo com a minha garota?”. Mônica olhou para cima e identificou o seu cunhado. “Seu verme, suma daqui, seu covarde!”. Jack levantou rapidamente e tentou soquear Carlos, mas os reflexos não estavam nada bons e ele foi facilmente dominado. “O que você quer boneca? O mesmo destino dessa putinha?”. Mônica foi de encontro a Carlos, que lhe deu um soco que a jogou desacordada novamente na calçada. Não passava ninguém na rua escura para ajudar, e foi fácil para o homem sóbrio terminar o seu serviço. Enquanto Jack tentava se desvencilhar, ele pegou a faca e cortou um dos dedos da mão direita dele. Não havia nada para fazer, Jack só queria acordar do sonho do mar vermelho agitado, sem Mônica. Desmaiou e quando acordou estava amarrado numa árvore e com uma mordaça enorme na boca. Deveria ser próximo do bar, pois ouvia música e via algumas luzes. Carlos estava comendo Mônica, agora já acordada e com uma fita na boca. Ela chorava e se debatia, enquanto o homem trabalhava forte. Tirou o pau da buceta e passou a fodê-la no cu, sem nenhum perdão, enquanto o sangue jorrava vivo de tão morto. Quando terminou de foder, enquanto olhava para Jack com aquele mesmo sorriso insano, pegou a faca e a enfiou lentamente no cu de Mônica que desmaiou de dor imediatamente e afogou todos os sonhos possíveis quando teve o pescoço torcido num gesto rápido, quase automático de maldade. A humanidade perdia mais uma vez.